Sobre queimadas e irresponsabilidade

Quanto tempo leva entre o ato de dar a última tragada no cigarro e esticar o braço para jogá-lo pela janela? Quanto tempo leva para alguém riscar um fósforo e jogá-lo fora? Quanto tempo pode levar a consequência desses atos?

Hoje é quinta-feira. Sábado passado alguém, propositada ou inadvertidamente, colocou fogo no pasto de uma fazenda, na baixada próxima à estrada que vai para Claraval. Desde então, o fogo vem vindo em direção à Franca(SP). Cinco dias. Cinco dias de preocupações, aflições, faltas ao trabalho, gasto de dinheiro, ocupação do Corpo de Bombeiros, noites insones, retirada de bebê para protegê-lo da fumaça que entra em casa e arde os olhos e a mente das pessoas responsáveis. Uma bomba da SABESP no caminho e o risco de deixar milhares sem água na cidade. Seguramente mais de uma dezena de famílias já foi atingida.

queimada acontecendo

O fogo esteve pertinho de mim por mais de 24 horas, do começo da tarde de segunda ao fim da tarde de terça-feira. Ontem à noite, quando eu finalmente voltava a confiar e me concentrar no trabalho, um alerta de mais fogo vindo em minha direção me tira o chão. À primeira vista não havia nada, tudo estava escuro, os pontos vermelhos já tinham sumido do meu campo de visão. Mas não, tem um ponto vermelho ali. E umas fagulhas acolá. Pequenas fagulhas intermitentes que me tiraram o equilíbrio, mobilizaram amigos e nos levaram a uma ronda de avaliação pelo pasto escuro.

Vários pontos em brasa no meio da mata, mas que agora só devem causar a tristeza pelas árvores perdidas. Com exceção de uma… as fagulhas que vi ao longe vem de uma árvore enorme, cuja base arde. Quarta-feira à noite uma enorme boca vermelha estava aberta no tronco, com mais de um metro de altura e 80% do diâmetro consumidos. Quanto tempo leva até que essa árvore caia? Em seu caminho encontrará substrato para provocar outro incêndio? Depois de caída, por quanto tempo arderá por dentro, em direção à sua copa? Devo contratar mais um caminhão pipa para evitar esse potencial incêndio? Na terça-feira já despejei (e paguei por) 16.000 litros de água na mata a fim de conter o fogo. 16.000 litros, num tempo de racionamento de água. Pela minha experiência forçosamente acumulada em um dia, seriam necessários muitos mil litros de água para resfriar essa árvore que arde e me tira a tranquilidade. Quantas árvores como essa o fogo deixou em seu caminho? O que nós, famílias atingidas, ainda temos pelo frente?

queimada árvore

Atear fogo na natureza é crime ambiental. Segundo me disse o cabo do Corpo de Bombeiros que esteve aqui, o criminoso deve pagar R$ 700,00 para cada árvore queimada. Crime incalculável, portanto, já que nesses cinco dias muitos quilômetros quadrados de matas foram atingidos. Para sorte do criminoso, não conhecemos a identidade dele. Torço, entretanto, para que ele leia este relato, reconheça-se e repense seus atos.

Conversas no táxi

Vocês sabem que meu meio de transporte aqui são os táxis lotação, que fazem determinado trajeto quando encontram 4 passageiros.

Desde a última segunda-feira eu já andei 590 Km assim, mudando apenas os companheiros e as conversas. Vou dividir com vocês algumas das que ouvi essa semana.

1 – O taxista, que diariamente dirige nos 200 Km da BR 364 que separam Porto Velho e Ariquemes, está chateado com a operação tapa-buracos que está em curso. Ele explica e eu tendo a lhe dar razão. Os operários fazem grandes quadrados com asfalto novo, provocando assim vários desníveis na estrada, mas o que mais incomoda ao taxista observador é que há muito mais remendos que havia buracos. ele, experiente, afirma; eu, menos habituada ao trecho, desconfio seriamente. Será que os caras cobrem trechos intactos só para a obra ficar mais cara? Será?

2 – Um passageiro previu poucas queimades este ano e muitas no ano que vem. A teoria dele é que em anos de eleição não há fiscalização nem aplicação de multas, ocasião que coloca o palito de fósforo na mão dos proprietários de terra que ainda acreditam ou se utilizam da prática de colocar fogo prá limpar o terreno. Será?

3 – Em conversa com dois enfermeiros fiquei sabendo que, mesmo tendo plano de saúde, a pessoa que necessita de uma emergência médica em Porto Velho, e também em Ariquemes, estará mais segura se for atendida em hospital público. No caso de Porto Velho, aquele mesmo que apareceu no Jornal Nacional meses atrás. Lá, quando comparado aos melhores hospitais particulares de Porto Velho, teria equipamentos mais adequados e, principalmente, médicos 24 horas por dia, realidade que não ocorre com os particulares. É o cu da cobra, né não?

4 – Vou finalizar com outra pérola que vi num táxi. Não foi conversa, mas invoca dois posts recentes deste blog: Comunicação e Verão amazônico. Achei a caderno de TV do jornal O Estadão, de Porto Velho, publicado no dia 10 de julho de 2011. Eu acho que trata-se de uma cópia do caderno de TV do jornal O Globo, prática que se vê em vários jornais e que não estou criticando. A coluna Viver Bem, cujo título é Será que um ambiente quente faz bem para a saúde?  começa assim: “Com a chegada do inverno, a procura por aparelhos aquecedores vem aumentando gradativamente. No entanto, tão importante quanto manter o ambiente aquecido, é garantir a qualidade do ar…” e continuam mais oito longos parágrafos falando sobre como usar os aquecedores de ambiente. PQP, será que custava ler o que veio formatado do Rio de Janeiro, notar que a temperatura ambiente aqui é de 40o. e que os rondonienses só pensam em comprar e usar ar condicionado? é o cu da cobra, né não?

Enfim, andar de táxi toda hora é um saco, a gente tem que esperar, muitas vezes ganha um carro pequeno, apertado, ao lado de gente nada a ver, mas, como tudo na vida, tem um lado bom e até divertido. Aprendi muito sobre a vida e a sociedade rondoniense andando nesses (quase) bólidos de aluguel.

Fechar a janela

Acabo de fechar a janela. Desta vez, não para ligar o ar condicionado ou impedir que a poeira entre, como faço normalmente, mas para evitar que as cinzas da queimada que ocorre agora, ao lado da minha casa, venham sujar a minha cama.

Tenho pensado, ultimamente, enquanto presencio o segundo ciclo de queimadas desde que me mudei prá cá, que ver pastos e floresta pegando fogo é tão natural para o filho de Rondônia, quanto ver o mar de Copacabana é natural para o carioca da zona sul.

Como acabar com as queimadas se quase todos que moram aqui cresceram vendo esse espetáculo (de tristeza, prá mim) se repetir, e repetir, e repetir…

Perdi minha camera fotográfica, e por isso não posso colocar fotos prá vocês da queimada que ora queima.

Colocarei uma foto de poucos dias atrás, tirada da mesma janela – agora fechada –  mostrando o que eu via até 1 hora atrás. O fogo é rápido, o fogo ruge!!

Viver em Rondônia 1 – queimadas

#7 quequel em 07/08/2010

Aqui uma foto que tirei ontem de manhã, na Linha União, em Buritis. É uma região de serra, pouco comum na Amazônia, e desse ponto podia-se ver longe. A minha câmera não ajuda, mas a imagem meio esfumaçada no horizonte é fumaça mesmo.

#7 quequel em 07/08/2010

Uma ponte sendo restaurada, sobre o rio Candeias, no município de Alto Paraíso. Observem no lado esquerdo da foto de satélite (mais abaixo, nesta mesma página) que as linhas acabam. O limite natural é o rio Candeias, e só uma das linhas ultrapassa o rio. A foto é exatamente nessa linha, pois a ponte permite que se continue pro outro lado, já território de Porto Velho. Pretendo voltar lá em breve, com a ponte pronta, prá visitar um laboratório que temos do lado de lá. 

#8 roberto em 07/08/2010

até que enfim, me chegam noticias do norte.

#9 anrafel em 10/08/2010

Raquel,

Que blog não teríamos, hein?  Experiências pessoais e sociologia na medida exata.

Acho que o slogan era “integrar para não entregar”. Se não, esse era um dos da época. Estimular a ida de nordestinos para a nova fronteira e assim tentar reduzir a demanda pela reforma agrária na região (mesmo a reforma nos termos do Estatuto da Terra, do governo Castelo Branco).

É claro que naturais de outras regiões atenderam (e atendem) ao apelo. O resultado tem sido isso que você tão bem começa a descrever.

#9.0 quequel em 15/08/2010 

Sim, Anrafel, era esse mesmo o slogan. Obrigada! Por isso e também pelo elogio. Tentarei corresponder às expectativas. : )

#10 quequel em 15/08/2010 

Marrapaz, não é que as queimadas bombaram essa semana nos telejornais do país… Estamos realmente num período de baixa umidade, o que favorece as queimadas acidentais. Basta uma guimba de cigarro jogada pela janela do carro… o mato seco e o vento se encarregam de alimentar e espalhar o fogo, aquele espetáculo tão bonito quanto desastroso, prá uns, e aparentemente necessário, prá maioria. Sim, a maior parte das queimadas é proposital. Pelo menos eu acredito nisso. O fogo faz parte da vida das pessoas de um jeito muito próximo… é só sair à rua no fim da tarde prá se ver fumaça saindo de todos os quintais. Aqui, na zona urbana mesmo. Pergunte a um morador se eles queimam o lixo. Em pé ao lado do monte de cinzas, com convicção de que falam a verdade, responderão que não. Queimam folhas, que por aqui deixaram de ser substrato prá terra pobre do solo amazônico, prá se transformar em feiúra e sujeira nos quintais, coisa que merece ser eliminada.

#11 quequel em 15/08/2010

A foto acima é em uma rua da cidade de Campo Novo de Rondônia. Rua normal, numa tarde normal.

Abaixo, uma fazenda à margem da BR 364. Muitos pastos estão com essa aparência por esses dias. Quando as autoridades chegam, os fazendeiros dizem que foi acidental, mas colocar fogo é a prática necessária, no ponto de vista deles, prá limpar o pasto.

#11.0 Fatima Ribeiro em 21/08/2010

Coincidência o “incêndio acidental” ser no terreno do pasto, não?

#11.0.0 quequel em 23/08/2010 

As queimadas nesses pastos me intriga, porque os fazendeiros podem ficar sem espaço para o seu gado.

Em todo caso, eles dizem que é acidental porque em tempos de seca qualquer guimba de cigarro jogada pela janela do carro pode iniciar o incêndio, que é difícil de ser controlado. Aliás, um jeito de controlar o fogo é colocando mais fogo, no sentido contrário. Quando os dois focos se encontrarem, eles se extinguirão.