Zona Sul

Recentemente estive no Rio de Janeiro e em São Paulo, nossas maiores cidades. Adoro passear nas duas.

O Rio está em obras. Avenidas, hoteis, contenção de encostas, metrô… em todo lugar – andei pelas zonas sul e oeste – vê-se essas obras. Túnel novinho e linha expressa de ônibus da Barra para a zona oeste que eu ainda não conhecia.  Tudo reflexo da Copa que vem aí, creio eu. Por todo o lado se vê também propagandas políticas do atual prefeito, candidato à reeleição. Outro candidato? Só vi uns dois cartazes em Santa Cruz. Acho que o Paes vai levar essa. Até porque a pacificação é a palavra mais usada. Parece que a cidade está mesmo pacificada, mais segura. Andamos pelo Parque Nacional da Floresta da Tijuca e havia pedestres, ciclistas, policiais, tudo transcorrendo muito bem.

Passeamos muito pela Joatinga, e mais surpresa para mim. Região rica, de magníficas mansões, sonho de muita gente lá pela década de 80, hoje está decadente. Muitas casas à venda, muitas casas sem manutenção, casas e terrenos vazios e abandonados. Que terá acontecido? Caiu o poder aquisitivo daquela gente? Não dá mais para manter casas tão grandes, tão caras? Os filhos cresceram, formaram suas próprias famílias e foram morar num apartamento na Barra? A violência urbana afastou as pessoas? Os moradores que podem pagar mudaram-se para um lugar mais na moda?

Em São Paulo hospedei-me no Morumbi, região que eu ainda não conhecia. Como a Joatinga, bairro residencial de classe alta, com maravilhosas mansões. Como a Joatinga, muitas casas à venda, muitas casas vazias e sem manutenção, um bairro algo decadente. é certo que as semelhanças acabam aqui, pois que o Morumbi é muito maior e tem uma parte comercial, outra com prédios, que não está decadente, mas me faço as mesmas perguntas que fiz acima, a respeito do Rio. O que houve? moda? queda do poder aquisitivo? insegurança???

Hospedamo-nos lá num esquema de “bed and breakfest”, muito comum na Europa. Pela internet, através de um site especializado, encontramos condições que nos eram favoráveis, relativas ao estilo da casa, preço e localização. A dona da casa fez contato e também gostou da gente, fechando o acordo. Fomos muito bem recepcionados, e logo ganhamos uma chave da casa, controle remoto do portão, acesso à geladeira… Muito legal e mais barato que hotel! Ela nos disse que recebe mais estrangeiros que brasileiros; disse que esses últimos estão sempre querendo tirar uma vantagem, fazer o acordo por fora para não precisar pagar a taxa de administração do site, essas coisas. Mas é uma modalidade de hospedagem que cresce no Brasil, e que quero continuar experimentando. Sites brasileiros têm surgido, inclusive.

A casa no Morumbi é muito charmosa, com arquitetura e decoração que nos agrada, mas deve ser demolida. Sendo bem próxima ao estádio do São Paulo, onde haverá alguns jogos da Copa do Mundo, todas as casas da rua serão desapropriadas para a construção de uma avenida e um monotrilho, que darão acesso ao estádio. Até aí tudo bem, disse-nos a proprietária, porque o bairro cresceu muitíssimo e o trânsito é inviável com as ruelas que tem hoje, mas… (sempre tem um mas) até hoje, ou até sexta passada, os proprietários não haviam sido notificados da desapropriação. Fiquei (quase) estupefata! A TV noticia os atrasos nas obras dos estádios e aeroportos, mas tem muito mais. Desconfio que essas notificações não ocorrerão antes das eleições municipais. Em 1,5 ano a prefeitura terá que desapropriar, demolir, construir avenida, monotrilhos… Será? a que custo? na parte que toca aos proprietários, a um custo “baixo”. Segundo ela, a prefeitura pagará 90% do valor do imóvel tal qual consta no IPTU, o que não dá prá comprar outro imóvel de mesmo nível num lugar legal.

Quanto a outras obras na cidade, pouco vi. Apenas a construção de linhas de metrô, que aliás expandiu bem suas linhas nos últimos anos. O trânsito continua caótico, mas agora há faixas exclusivas para ônibus e taxis nas principais avenidas. Bikes, vi muito poucas. De positivo, há que se dizer, muita polícia nas ruas. Um policiamento marcante, mas não ostensivo. Andamos por muitos bairros, centro, zonas sul e leste, e lá estavam eles. Gostei de ver. Em todos esses lugares vimos também muitos jovens recolhendo dinheiro nos sinais para construir casas para pessoas sem acesso à moradia. São voluntários da ONG Teto. Constroem casas simples para quem não tem nem isso, dando dignidade e ajudando a reduzir da pobreza. Uma bela iniciativa, que não é somente obra de caridade, mas que promove o encontro de realidades sociais distintas, empodera e amplia os horizontes tanto dos voluntários quanto dos beneficiados com moradia.

Para encerrar, uma frase de uma das voluntárias do Teto, encontrada aqui através do São Google, porque casualmente usou o nome deste blog em sua fala:

“Thalita Santos, de 22 anos, formada em Relações Públicas, participou pela primeira vez de uma ação do Teto. Ela integrou a equipe que construiu a casa da família de Ana Carolina, 17 anos, que vive com o filho Mateus, de apenas 3, na comunidade Souza Ramos, zona leste da capital. “Foi um choque, nem parecia que estávamos em São Paulo. Lá não tinha esgoto, água encanada nem coleta de lixo. E no mundo onde eu vivo, isso é tão básico…”, conta a voluntária. Para quem nunca havia pegado num martelo, Thalita superou as próprias expectativas. “Você se surpreende com você mesmo, com a sua força e a vontade de construir”.”

Agora, com a palavra, vocês que me lêem e sacam o Rio e São Paulo.

Anúncios