A Internet e o papel higiênico

O questionamento é um troço perigoso! Bem fez a igreja que estabeleceu como dogmas seus princípios religiosos. Dogmas não se questionam.

Eu nunca havia me questionado sobre qual o melhor lado para se colocar o rolo do papel higiênico no suporte. Até que…

Até que surgiu a Internet.

Minha primeira conversa sobre a Internet, lá pelos idos de 1998/1999, ficou marcada na minha vida. Lembro-me vagamente da situação. Uma colega de trabalho, cuja única característica que me recordo é a cor dos cabelos, estava contando que na Internet se encontrava de tudo.

Segundo ela havia um site de buscas – o AltaVista – que nos ajudava a encontrar o que quiséssemos. Ainda não existia o Mr. Google em nossas vidas, mas o AltaVista fazia esse papel.

E papel , desta vez o higiênico, foi o tema que ela usou pra exemplificar o quanto de futilidade cabia na recém conhecida Internet: “tem até enquete pra saber por qual lado do papel higiênico a pessoa prefere desenrolá-lo”.

Eu pensei: “Nossa, nunca pensei nisso! O que será que prefiro?”

Estava instaurado o questionamento em minha mente. Jamais, depois disso, fui capaz de suportar a língua do papel saindo por trás do rolo. Pra mim, tem que ser pela frente. Ponto!

Dezoito anos! Dezoito anos colocando o rolo numa mesma posição, a posição “correta”. Hahahaha.

Dezoito anos “consertando” o rolo dos outros, quando na posição incorreta, indevida, desconfortável, nada a ver, diferente da que gosto, etc, etc, etc.

Hoje cedo coloquei um novo rolo às pressas sem procurar saber de que lado estava colocando. Ficou assim:

Papel higienico 1.jpg

Eu hein! quando vi, tratei logo de consertar. Ficou assim:

papel-higienico-2

Enquanto digitava este texto tive a curiosidade de perguntar ao Google qual lado ele prefere. Seis sites em Português trazem o difícil dilema, tratando o tema até com seriedade e dizendo que há um lado certo. Ahh, faça-me o favor!!

Espero que este post lhe faça rir, mas não lhe aprisione neste mundo fantasioso do certo e errado.

Conta aí, você já tinha se ligado nisso? Tem um lado preferencial? Eu descobri que muita gente tem e nunca mais vou mexer no papel higiênico da casa dos outros. Temos que respeitar…

Vila Franca do Imperador

Moro em Franca/SP, efetivamente, desde 2012. Antes já havia estado por aqui por 3 anos – 2007, 2008, 2009. Morávamos em Cristais Paulista (assim mesmo, no singular. O leitor de fora há de estranhar, como eu estranhei no princípio). A despeito do trabalho do meu marido ser em Franca, escolhemos Cristais por ser uma cidade pequenininha e algo charmosa, bem próximo a Franca. Lá foi mais fácil alugar casa com pouco dinheiro e sem ter fiador. E, pesou na nossa escolha, achávamos que seria mais fácil fazer amigos numa cidade pequena, então com 5.000 hab na zona urbana. Franca tem pouco mais de 300.000, é uma cidade média do interior paulista, e era onde estávamos quase todos os dias, trabalhando e utilizando a maior parte dos serviços de que necessitávamos. Por esta razão, considero que estou em Franca há 10 anos. 

O ano era 2007. Vínhamos de uma temporada de 1,5 ano na Inglaterra, mas trazendo nossa mudança de Rio Branco/AC, cidade para onde imaginávamos voltar depois da Inglaterra e onde nossa casa tinha ficado montada. Mas, no fechar das malas em terras da Rainha, uma inesperada viagem à China nos trouxe para Franca. Nenhum conhecido. Nenhuma referência. Eu, capixaba, sabia da existência de Franca porque havia francanos estudando em Ouro Preto/MG, na mesma época que eu. Mas era assim, apenas o nome de uma cidade.

No primeiro ano, nenhuma amizade construída. No segundo, conseguimos. Fizemos amizade com um casal – ele francano, ela paulistana – e somos muito felizes por isso. Por cinco anos, foram nossos únicos amigos por aqui. E quanta generosidade eles têm!! Foi ela quem me contou do edital de seleção para um projeto do Fundo Global de Luta contra Aids, Malária e Tuberculose, em parceria com o Ministério da Saúde. O edital pedia alguém com a minha cara, eu pensei. Necessitada de trabalho e dinheiro, lá fui eu. Selecionada, escolhi morar em Alto Paraíso, interior de Rondônia. Foi lá que morei em 2010 e 2011, como bem sabem os visitantes antigos deste blog.

Ainda em Cristais, em 2009, tentando driblar a solidão em que eu me encontrava, fiz amizade com um grupo virtual que foi uma ajuda excepcional para mim. Eles eram um bálsamo para os meus dias, e foram encontrados entre os comentaristas do finado Weblog, um blog sobre política internacional. Tínhamos um boteco virtual no extinto site Pandorama, onde conversávamos muito. Havia gente de vários cantos do Brasil e do mundo, mas ninguém da Amazônia. Uma vez em Rondônia, passei a relatar para eles como era o mundo lá. E assim nasceu este blog, que agora tento fazer renascer.  

O Mundo em que Vivo nasceu com duas finalidades: dividir minha vida com meus amigos; e despertar o meu olhar para as coisas boas que havia nas cidades rondonienses onde eu vivia. E deu muito certo!!! Cerca de 2 anos atrás recebi um comentário raivoso de uma moradora de Campo Novo, uma cidadezinha com poucos atrativos, longe de tudo. A moradora se revoltava com a visão positiva que eu passava da cidade, um lugar que, na opinião dela, não tinha nada de bom.

Foi com o blog bombando – entre meus amigos, porque nunca fiz propaganda dele – e com minha veia jornalística aflorada, que voltei pra Franca, em fevereiro de 2012. Meu marido já havia mudado nossa casa de Cristais para Franca, e eu passei a ter endereço francano. O resultado disso foi que o blog morreu! Minhas capacidades de observação e escrita morreram.

Eu não conseguia escrever sobre Franca! O mundo em que eu vivia de repente passou a não ter situações pitorescas que saltassem aos meus olhos e merecessem ser compartilhadas. A fonte secou. Mas, por quê? Seria o fato de eu estar fazendo doutorado? ou de Franca ser no Sudeste, a região onde eu passei a maior parte da minha vida; onde se encontra o jeito TV Globo de ser; onde moram tantos brasileiros?  Acho que não. Tudo aqui – relevo, clima, pronúncia, gosto musical, arquitetura – é diferente de onde venho, no ES.

Então em 2013 chegou às minhas mãos a Revista VAPO!

 revista-vapo

VAPO!? O que é isso?

O número 1 da revista começa assim:

“Poucos são os francanos que desconhecem o termo VAPO!, utilizado como refutação ou surpresa diante de algo. É VAPO! para isso, é VAPO para aquilo…”

Foi com essa frase, de Lelo Júnior, que eu entendi o porquê de eu não conseguir escrever sobre Franca. Eu estava nessa região há sete anos e jamais ouvira essa expressão. Eu era capaz de ir e vir sem me perder, já sabia encontrar uma boa padaria, a loja onde comprar calcinhas, uma boa oficina mecânica, mas eu não conhecia a alma da cidade. EU NÃO CONHECIA OS FRANCANOS!

Assim que voltei pra cá, em 2012, comecei a ampliar meu círculo de conhecidos, muitos francanos entre eles. Fiz um curso sobre vinhos e dali saíram gostosas amizades; Conhecemos o dono de um barzinho delicioso – O Vilarejo do Monjolo – que foi e ainda é de uma generosidade ímpar conosco, nos levando pra dentro de sua casa, e pra dentro da casa dos seus amigos; comecei a trabalhar e a fazer doutorado, o que me apresentou a novas pessoas. Mas, depois de um ano, constatei que nada disso havia – ainda – me aproximado da alma francana.

De lá pra cá as aproximações foram se dando. Terminei o doutorado, diversifiquei o local de trabalho, passei a fazer parte de grupos de francanos no Facebook, fiz amizades entre os colegas de trabalho. Hoje estou mais próxima que nunca de entender a alma francana, mas ainda falta. Talvez sempre falte, visto que jamais serei francana. 

Em Rondônia eu era uma forasteira numa terra de forasteiros. Um terra recente, há pouco colonizada. Rapidamente fui acolhida e entendi a simplicidade do lugar. Em Franca sou forasteira numa terra antiga, de não-forasteiros. É assim que vejo os francanos, um povo enraizado, que saiu pouco de casa e por isso não compreende a necessidade de socialização dos que vem de fora; que tem vida e família muito bem estabelecidos, e por isso não acha, facilmente, espaço pra agregar novas pessoas. Não rapidamente.

Mas agora, janeiro de 2017, mês em que completo 10 anos de Franca, estou muito feliz aqui. Tenho finalmente amigos que alegram meus dias, tenho um trabalho onde sou respeitada. Láááá em 2013 guardei a Revista VAPO para escrever este texto. Láááá em 2013 a ideia virou semente. Pouco a pouco foi regada pelas minhas experiências cotidianas. Hoje este longo texto brotou dentro de mim, me acordou, me tirou da cama e exigiu seu nascimento. Começo a me sentir apta a escrever sobre Franca. A cidade, as pessoas, os lugares pitorescos, minhas vivências aqui. Afinal, este é o mundo em que vivo. 

Descobriremos juntos se há interessados neste mundo.

O método científico é chato!

Entrei neste blog agora prá postar um texto novo. Boteco há muito abandonado, só consegui destrancar a porta após a quarta tentativa. Vira e mexe recebo notificações do correio de que alguém conseguiu entrar lá e deixar um recado. O último é uma crítica, que desconsiderei porque desconsidero críticas de quem não sabe escrever. Soberba minha, eu saquei há pouco tempo, com ajuda daquele site de casamentos onde a amiga da Nat candidatou-se a uma festa.
O que me surpreende sempre que retorno à este meu/nosso mundo particular, é notar algumas vidraças sempre limpas, de tanto as pessoas sondarem o seu interior. Os quartos onde guardo os garimpos, as cidades garimpeiras e a estrada, estão sempre com as vidraças limpas. Hoje, ainda pelo meio do dia, nove pessoas já passaram por aqui. Ontem foram 15, e antes de ontem, 25. Não há um dia sequer que não tenha um visitante perscrustando seus interiores. Dia 10 de outubro, dia de de aniversário de pessoas queridas, foram 77 visualizações no Mundo em que Vivo. Fátima e Rita fizeram aniversário, mas eu também ganhei presentes, ainda que só os tenha descoberto hoje.
Em contrapartida, vou presenteá-los com um texto novo, que de novo não tem nada, já que foi escrito em fevereiro passado, num restaurante de aeroporto, quando eu voltava do carnaval para casa:

 

O método científico é chato!

O método científico é chato! Este é o pensamento que passou há pouco em minha mente. Gosto mais dos meus escritos leves, sem necessidade de referências, coisas minhas, que não necessitam de comprovação prévia, de outros autores maiores e melhores que eu, para corroborar o que estou dizendo. Não!

Quero escrever o que penso, e só, sem compromisso com a verdade. Aliás, que verdade? E este é o ponto a que minha afirmação me levou. O método científico é chato! Para mim, obviamente. Há milhares de cientistas apaixonados pelo que fazem, e há mais milhares ainda de pessoas que gostam de método e de referências externas. Também meus pensamentos têm referências externas – obviedade de novo – mas não preciso explicitá-las a cada vez que me manifesto.

O que me incomoda nas frases afirmativas é sua arrogância, sua travestida intenção de verdade absoluta. O método científico é chato! A expressão oculta “Para mim”, que existe nessa frase, devia ser mais óbvia, clara, enorme. Tantas pessoas não a enxergam! Falha da nossa língua. Estará implícita em outra língua, ou as afirmações são arrogantes em todas as culturas?  Quisera ter experiência para responder a esta pergunta.

Na adolescência, Normanda, minha professora de Química, fez um teste psicológico com os alunos e disse que eu era desconexa. O teste facilmente identificou a personalidade de todos os meus colegas, mas a minha não. Eu era desconexa. E era mesmo. E sou ainda. Isso me incomodou por muito tempo, mas não mais. O fato é que não consigo assumir posições de 8 ou 80 (hummm, um pensamento infame passou em minha cabeça agora. Os leitores mais libidinosos entenderão). Para mim, não existem verdades absolutas, a não ser o fato de que é muito mais fácil e prazeroso escrever neste blog do que na minha tese de doutorado.  

Estudar os assuntos que estudo no doutorado é uma delícia. As sacações, as descobertas, tudo muito bom e é isso que, em boa medida me faz saber que tenho que continuar. Mas o texto escrito não flui, como este aqui. Não flui e não pode fluir. Tenho que voltar, sempre e sempre, a outros autores, e citá-los, citá-los, mas nunca parafraseá-los.  Quero dizer, parodiá-los.

Estou agora sentada em um restaurante e a frase que originou este texto passou pela minha cabeça. Pensei em escrever mas achei que não sairia mais que um parágrafo. Desisti. A ideia persistiu dentro de mim. Comece, comece…  cá estou, no sexto parágrafo, com o sétimo engatilhado. O texto flui, enquanto o garçom repõe minha taça de vinho. Será que preciso de umas doses prá escrever minha tese? hahaha

Escrever é bom porque nos permite perceber o que vai na mente. Ao escrever acima que o texto científico não pode fluir eu expus prá vocês aquilo em que acreditava, mas já desacreditanto. Não me parece natural que um texto original, qualquer que seja ele, não possa fluir. Devo estar estudando errado. Preciso ler e ler e ler; estudar, estudar e estudar; aprender, aprender e aprender, o que dizem vários autores. Absorver, criticar, misturar, liquidificar, criar… criar sem me esquecer dos créditos, da fonte em que bebi, daqueles lindinhos que me fizeram aprender, crescer e aparecer. Só assim continuarei sem ser a dona da verdade, mas poderei dizer que sou doutora em alguma coisa.

Mas tenho que fazer isso sem me esquecer dos fichamentos, né? Ah, tá. Então tá.

Rituais para despertar.

Rituais para despertar. Você tem algum? Não me refiro aqui àquelas etapas básicas da higiene e alimentação, que quase todo mundo tem igual. Ok, mais ou menos igual. Refiro-me a situações que, se provocadas, lhe ajudarão a despertar com alegria extra e começar o dia com o pé direito.

Houve um tempo em que minha mãe acordava seu neto com um “Bom dia, flor do dia”. Certa manhã ele acordou e ficou na cama, esperando que ela viesse vê-lo. Cansado de esperar por tal momento tão feliz ele levantou-se e pôs-se a procurar por ela pela casa. Sonolento e mal-humorado, soltou apenas um grunhido quando passou por mim e lhe falei algo. Achou-a ao pé do tanque, lavando roupas. Postou-se ao lado dela e, puxando-lhe a blusa, suplicou: ─ “Vóóó, fala! Faaala vó! Fala!”. A princípio nem ela nem eu entendemos o que ele queria, mas, como as avós são também seres mágicos, logo ela lembrou-se, abriu um sorriso e um brilho no olhar e disse: ─ “Bom dia, flor do dia!”. Pronto. Estava feito. O menino abriu seus próprios sorriso e brilho no olhar e saiu, saltitante e bem-humorado, a encarar todo um dia de brincadeiras e divertimentos, naquelas férias na casa da vovó.

Eu agora também tenho um ritual de despertar, que ganhei do meu marido. Raramente o utilizamos, quase que somente quando as crianças estão em casa. Ele costumava acordar os rebentos com a música American Pie, de Don McLean. Uma delícia de música, que é longa e começa devagar, aumentando seu ritmo e volume aos poucos. Dá tempo para um despertar lento, gostoso, preguiçoso. Como as crianças já são praticamente adultos, nas poucas vezes que vem nos visitar não precisam ser acordadas, pois que nada há de especial para se fazer nas manhãs. Viajar conosco? Ahh, coisas do passado.

No meu período vivendo em Rondônia aconteceu de uma amiga me presentear com este ritual. Quando tínhamos reuniões de trabalho em Porto Velho ou em Brasília, dividíamos o mesmo quarto de hotel. Ela, moça ligada no 220V, gostava de acordar bem cedo e ouvir músicas agitadas, como forró e sertanejo universitário. Eu não gosto do gênero, muito menos às seis da manhã, quando ainda estou do outro lado da ponte. A coitada tinha que abrir mão do ritual dela em respeito à dorminhoca ao lado. Tudo mudou quando ela descobriu American Pie. Ela levantava-se às seis da matina, tomava seu banho e vinha pro quarto. Punha American Pie para mim, que passava a acordar lenta e preguiçosamente. Ao fim da música eu estava desperta e ela tinha o resto do tempo para ouvir suas músicas preferidas. Guardo bons momentos dessas manhãs ao lado dela e da Socorro, nossa outra companheira de trabalho em Rondônia. Obrigada, Ana Paula Gatto! Saudade de você.
Precisamos, meu marido e eu, presentear-nos mais vezes com essa música ao amanhecer. Coisas simples que fazem a vida melhor.

Estado de espírito: apaixonada!

“Que o homem que eu amo seja prá sempre amado, mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.”

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Eu sei, vocês esperam mais. Mais frequencia, mais profundidade, mais olhares sociológicos sobre o outro. Mas no momento é isso aí que me ocorre. Porque no mundo em que vivo há muito espaço para a paixão. E viver em Rondônia, prá mim, é também viver longe do meu amor, do meu cão e do meu chão.