Vila Franca do Imperador

Moro em Franca/SP, efetivamente, desde 2012. Antes já havia estado por aqui por 3 anos – 2007, 2008, 2009. Morávamos em Cristais Paulista (assim mesmo, no singular. O leitor de fora há de estranhar, como eu estranhei no princípio). A despeito do trabalho do meu marido ser em Franca, escolhemos Cristais por ser uma cidade pequenininha e algo charmosa, bem próximo a Franca. Lá foi mais fácil alugar casa com pouco dinheiro e sem ter fiador. E, pesou na nossa escolha, achávamos que seria mais fácil fazer amigos numa cidade pequena, então com 5.000 hab na zona urbana. Franca tem pouco mais de 300.000, é uma cidade média do interior paulista, e era onde estávamos quase todos os dias, trabalhando e utilizando a maior parte dos serviços de que necessitávamos. Por esta razão, considero que estou em Franca há 10 anos. 

O ano era 2007. Vínhamos de uma temporada de 1,5 ano na Inglaterra, mas trazendo nossa mudança de Rio Branco/AC, cidade para onde imaginávamos voltar depois da Inglaterra e onde nossa casa tinha ficado montada. Mas, no fechar das malas em terras da Rainha, uma inesperada viagem à China nos trouxe para Franca. Nenhum conhecido. Nenhuma referência. Eu, capixaba, sabia da existência de Franca porque havia francanos estudando em Ouro Preto/MG, na mesma época que eu. Mas era assim, apenas o nome de uma cidade.

No primeiro ano, nenhuma amizade construída. No segundo, conseguimos. Fizemos amizade com um casal – ele francano, ela paulistana – e somos muito felizes por isso. Por cinco anos, foram nossos únicos amigos por aqui. E quanta generosidade eles têm!! Foi ela quem me contou do edital de seleção para um projeto do Fundo Global de Luta contra Aids, Malária e Tuberculose, em parceria com o Ministério da Saúde. O edital pedia alguém com a minha cara, eu pensei. Necessitada de trabalho e dinheiro, lá fui eu. Selecionada, escolhi morar em Alto Paraíso, interior de Rondônia. Foi lá que morei em 2010 e 2011, como bem sabem os visitantes antigos deste blog.

Ainda em Cristais, em 2009, tentando driblar a solidão em que eu me encontrava, fiz amizade com um grupo virtual que foi uma ajuda excepcional para mim. Eles eram um bálsamo para os meus dias, e foram encontrados entre os comentaristas do finado Weblog, um blog sobre política internacional. Tínhamos um boteco virtual no extinto site Pandorama, onde conversávamos muito. Havia gente de vários cantos do Brasil e do mundo, mas ninguém da Amazônia. Uma vez em Rondônia, passei a relatar para eles como era o mundo lá. E assim nasceu este blog, que agora tento fazer renascer.  

O Mundo em que Vivo nasceu com duas finalidades: dividir minha vida com meus amigos; e despertar o meu olhar para as coisas boas que havia nas cidades rondonienses onde eu vivia. E deu muito certo!!! Cerca de 2 anos atrás recebi um comentário raivoso de uma moradora de Campo Novo, uma cidadezinha com poucos atrativos, longe de tudo. A moradora se revoltava com a visão positiva que eu passava da cidade, um lugar que, na opinião dela, não tinha nada de bom.

Foi com o blog bombando – entre meus amigos, porque nunca fiz propaganda dele – e com minha veia jornalística aflorada, que voltei pra Franca, em fevereiro de 2012. Meu marido já havia mudado nossa casa de Cristais para Franca, e eu passei a ter endereço francano. O resultado disso foi que o blog morreu! Minhas capacidades de observação e escrita morreram.

Eu não conseguia escrever sobre Franca! O mundo em que eu vivia de repente passou a não ter situações pitorescas que saltassem aos meus olhos e merecessem ser compartilhadas. A fonte secou. Mas, por quê? Seria o fato de eu estar fazendo doutorado? ou de Franca ser no Sudeste, a região onde eu passei a maior parte da minha vida; onde se encontra o jeito TV Globo de ser; onde moram tantos brasileiros?  Acho que não. Tudo aqui – relevo, clima, pronúncia, gosto musical, arquitetura – é diferente de onde venho, no ES.

Então em 2013 chegou às minhas mãos a Revista VAPO!

 revista-vapo

VAPO!? O que é isso?

O número 1 da revista começa assim:

“Poucos são os francanos que desconhecem o termo VAPO!, utilizado como refutação ou surpresa diante de algo. É VAPO! para isso, é VAPO para aquilo…”

Foi com essa frase, de Lelo Júnior, que eu entendi o porquê de eu não conseguir escrever sobre Franca. Eu estava nessa região há sete anos e jamais ouvira essa expressão. Eu era capaz de ir e vir sem me perder, já sabia encontrar uma boa padaria, a loja onde comprar calcinhas, uma boa oficina mecânica, mas eu não conhecia a alma da cidade. EU NÃO CONHECIA OS FRANCANOS!

Assim que voltei pra cá, em 2012, comecei a ampliar meu círculo de conhecidos, muitos francanos entre eles. Fiz um curso sobre vinhos e dali saíram gostosas amizades; Conhecemos o dono de um barzinho delicioso – O Vilarejo do Monjolo – que foi e ainda é de uma generosidade ímpar conosco, nos levando pra dentro de sua casa, e pra dentro da casa dos seus amigos; comecei a trabalhar e a fazer doutorado, o que me apresentou a novas pessoas. Mas, depois de um ano, constatei que nada disso havia – ainda – me aproximado da alma francana.

De lá pra cá as aproximações foram se dando. Terminei o doutorado, diversifiquei o local de trabalho, passei a fazer parte de grupos de francanos no Facebook, fiz amizades entre os colegas de trabalho. Hoje estou mais próxima que nunca de entender a alma francana, mas ainda falta. Talvez sempre falte, visto que jamais serei francana. 

Em Rondônia eu era uma forasteira numa terra de forasteiros. Um terra recente, há pouco colonizada. Rapidamente fui acolhida e entendi a simplicidade do lugar. Em Franca sou forasteira numa terra antiga, de não-forasteiros. É assim que vejo os francanos, um povo enraizado, que saiu pouco de casa e por isso não compreende a necessidade de socialização dos que vem de fora; que tem vida e família muito bem estabelecidos, e por isso não acha, facilmente, espaço pra agregar novas pessoas. Não rapidamente.

Mas agora, janeiro de 2017, mês em que completo 10 anos de Franca, estou muito feliz aqui. Tenho finalmente amigos que alegram meus dias, tenho um trabalho onde sou respeitada. Láááá em 2013 guardei a Revista VAPO para escrever este texto. Láááá em 2013 a ideia virou semente. Pouco a pouco foi regada pelas minhas experiências cotidianas. Hoje este longo texto brotou dentro de mim, me acordou, me tirou da cama e exigiu seu nascimento. Começo a me sentir apta a escrever sobre Franca. A cidade, as pessoas, os lugares pitorescos, minhas vivências aqui. Afinal, este é o mundo em que vivo. 

Descobriremos juntos se há interessados neste mundo.