Rituais para despertar.

Rituais para despertar. Você tem algum? Não me refiro aqui àquelas etapas básicas da higiene e alimentação, que quase todo mundo tem igual. Ok, mais ou menos igual. Refiro-me a situações que, se provocadas, lhe ajudarão a despertar com alegria extra e começar o dia com o pé direito.

Houve um tempo em que minha mãe acordava seu neto com um “Bom dia, flor do dia”. Certa manhã ele acordou e ficou na cama, esperando que ela viesse vê-lo. Cansado de esperar por tal momento tão feliz ele levantou-se e pôs-se a procurar por ela pela casa. Sonolento e mal-humorado, soltou apenas um grunhido quando passou por mim e lhe falei algo. Achou-a ao pé do tanque, lavando roupas. Postou-se ao lado dela e, puxando-lhe a blusa, suplicou: ─ “Vóóó, fala! Faaala vó! Fala!”. A princípio nem ela nem eu entendemos o que ele queria, mas, como as avós são também seres mágicos, logo ela lembrou-se, abriu um sorriso e um brilho no olhar e disse: ─ “Bom dia, flor do dia!”. Pronto. Estava feito. O menino abriu seus próprios sorriso e brilho no olhar e saiu, saltitante e bem-humorado, a encarar todo um dia de brincadeiras e divertimentos, naquelas férias na casa da vovó.

Eu agora também tenho um ritual de despertar, que ganhei do meu marido. Raramente o utilizamos, quase que somente quando as crianças estão em casa. Ele costumava acordar os rebentos com a música American Pie, de Don McLean. Uma delícia de música, que é longa e começa devagar, aumentando seu ritmo e volume aos poucos. Dá tempo para um despertar lento, gostoso, preguiçoso. Como as crianças já são praticamente adultos, nas poucas vezes que vem nos visitar não precisam ser acordadas, pois que nada há de especial para se fazer nas manhãs. Viajar conosco? Ahh, coisas do passado.

No meu período vivendo em Rondônia aconteceu de uma amiga me presentear com este ritual. Quando tínhamos reuniões de trabalho em Porto Velho ou em Brasília, dividíamos o mesmo quarto de hotel. Ela, moça ligada no 220V, gostava de acordar bem cedo e ouvir músicas agitadas, como forró e sertanejo universitário. Eu não gosto do gênero, muito menos às seis da manhã, quando ainda estou do outro lado da ponte. A coitada tinha que abrir mão do ritual dela em respeito à dorminhoca ao lado. Tudo mudou quando ela descobriu American Pie. Ela levantava-se às seis da matina, tomava seu banho e vinha pro quarto. Punha American Pie para mim, que passava a acordar lenta e preguiçosamente. Ao fim da música eu estava desperta e ela tinha o resto do tempo para ouvir suas músicas preferidas. Guardo bons momentos dessas manhãs ao lado dela e da Socorro, nossa outra companheira de trabalho em Rondônia. Obrigada, Ana Paula Gatto! Saudade de você.
Precisamos, meu marido e eu, presentear-nos mais vezes com essa música ao amanhecer. Coisas simples que fazem a vida melhor.

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