1983

As fotos abaixo foram retiradas de uma revista de 1983, e estão aqui para contextualizar  o próximo post, sobre desenvolvimento na Amazônia; para fazer o leitor lembrar-se – ou conhecer, no caso dos mais jovens – de uma época; para nos ajudar a sacar o quanto a indústria e a tecnologia avançaram nesses últimos 28 anos.



Paris x Porto Velho

Acabei de voltar de uma viagem de três semanas pela Europa, uma delas passada na cidade luz. Paris foi a maior cidade que visitamos, a mais rica, a mais cheia de gente, mas não a mais prazerosa, visto que as cidadezinhas européias são cheias de charme e encanto, enquanto Paris tem turistas demais, sujeira além da medida e cada vez mais mendigos pelas ruas. Mesmo assim, eu moraria pelo menos uns 6 meses em Paris, para conhecer mais do que a cidade tem a oferecer.

Sou fascinada pela Europa, pela sua cultura, prédios antigos, cidades bem cuidadas, sua sociedade tão bem desenvolvida. De avião, menos de 24 horas separam qualquer aeroporto europeu de Porto Velho, e o desembarque aqui pode ser chocante. Eu prefiro a estética urbana de lá à daqui; a música de lá ao sertanejo/brega ouvido aqui; a comida elaborada de lá à comida simples feita aqui; o clima frio de lá ao calor daqui. Claro que lá tem lugares feios, música ruim e comida péssima, da mesma forma que aqui temos lugares bonitos, música boa e comida de qualidade. Mas lá sou turista, aqui vivo a vida real, com encantos e desencantos presentes em qualquer vida real.

É impossível não fazer comparações. Tão impossível quanto injusto. Com mais de 2.000 anos de história, encontramos na Europa uma sociedade desenvolvida na esteira dessa história. O Brasil, com 500 anos, é pouco mais que uma criança. Que dizer das cidades rondonienses, cuja maioria não conta ainda 30 anos de idade?

Ressalvado o fato de estarmos na faixa tropical do planeta, onde os “pobres” do mundo se concentram, a nossa pobreza – por pobreza aqui refiro-me à pobreza arquitetônica, à ausência do Estado, ao baixo nível de desenvolvimento social – é resultado da busca pela sobrevivência, onde o belo perde importância, passa a ser secundário. À medida que nossas conquistas sociais vão se solidificando, que o Estado vai se fazendo presente na vida dos cidadãos, que a riqueza vai sendo melhor distribuída, a luta pela sobrevivência diminui e o belo pode tornar-se prioridade, ou realidade.

Hemingway* me acalenta, contando sua vida em Paris há 90 anos…

“Nosso apartamento na rue Cardinal Lemoine era de dois quartos, não tinha água quente nem sanitário próprio, exceto um receptáculo antisséptico, não de todo desconfortável para alguém que, como eu, estava habituado a uma privada fora de casa, em Michigan.”

Mas ele discordaria de mim quanto a esse papo de que beleza perde importância quando se tem pouco, vez que continua descrevendo o apartamento onde vivia com a esposa e o filho pequeno com a sentença abaixo:

“Com uma linda vista, um bom colchão no chão, como leito confortável, e nas paredes os quadros de que gostávamos, era um apartamento alegre, acolhedor.”

Muitos capítulos adiante, descrevendo uma viagem de carro feita de Lyon a Paris, com o amigo Scott Fitzgerald, mais uma demonstração do bom hábito alimentar dos europeus (para os meus padrões), combinada com uma prática hoje proibida, tanto lá quanto cá – sinal do avanço da sociedade:

“…Comemos nosso lanche, preparado no hotel de Lyon, que estava mesmo sensacional: frango assado, com recheio de trufas, pão delicioso e uma admirável garrafa de Mâcon branco. Scott estava no melhor dos humores, e começamos a tomar o generoso Mâconnais cada vez que parávamos. Quando chegamos à cidade que tem o nome do vinho, compramos mais quatro garrafas, para que não nos faltasse combustível na viagem.”

Por fim, para não cansar você, meu caro leitor, citarei apenas mais uma passagem da vida do famoso escritor, que achei peculiar por mostrar que mesmo lá, nem tudo que é proibido é seguido. Desta feita, o causo se passa na cidade austríaca de Schruns, onde ele costumava passar os invernos com a mulher e o filho, visto que essa estação do ano não combinava com uma casa sem aquecimento como era a de Paris.

“Uma ou duas vezes por semana havia uma rodada de pôquer no salão de jantar, as portas trancadas e janelas fechadas, pois o jogo era então proibido na Áustria. Meus parceiros eram Herr Nels, gerente do hotel, Herr Lent, o professor de esqui alpino, um banqueiro da cidade, o promotor público e um capitão de polícia. O jogo era para valer […]. O capitão de polícia tocava a orelha com os dedos quando ouvia os passos dos dois guardas aproximando-se da porta, em sua ronda noturna. Ficávamos todos num silêncio tumular até que eles se afastassem.”

Hemingway me traz esperança. Esperança de que a vida miserável de muitos ribeirinhos e moradores da floresta será, um dia, mais saudável; esperança de que as sociedades daqui vão se organizar, com o tempo, e novas oportunidades chegarão a este lugar…

Sei que cometo o erro de comparar “lá com cá”, de pensar que lá temos cultura demais e aqui cultura de menos. Ainda anestesiada pela minha viagem, terei perdido a capacidade de extrair poesia e beleza do cotidiano rondoniense? Aqui há também muita cultura, eu é que tenho dificuldade em enxergá-la. A riquíssima cultura amazônica é facilmente encontrada no Amazonas, no Acre, no Pará… em Rondônia não. Pelo menos nessa parte onde vivo. Aqui temos muitos descendentes de europeus, vindos do Paraná. Alemães, italianos, poloneses… mas sua cultura européia foi perdida. Necessidade de sobrevivência? Excetuando-se os CTG´s (Centros de Cultura Gaúcha) com seu churrasco de chão e vaneirão, me pergunto qual a comida típica daqui? qual a música típica daqui?

Acho que não se trata de ter ou não ter cultura, mas ter raízes, passado, história.

Ou serão esses os ingredientes da cultura?

* Hemingway, Ernest. Paris é uma festa. 3ed., Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1975.

O mundo que vive em mim

Através deste blog vocês conhecem um pouco do mundo em que vivo, dos lugares onde o meu cotidiano se desenrola. Hoje vou mostrar um pouco do mundo que vive em mim, aquilo que carrego para onde vou, que forma o eu sou.

Nos dois vídeos abaixo, um bonito documentário sobre o trabalho de um homem – o segundo na minha memória de 40 anos – que mexe com o imaginário de milhares de pessoas.

No vídeo vocês vão conhecer a igreja onde fui batizada, confirmada, onde me casei; o cemitério onde meu irmão, meu pai, meu avô e demais antepassados estão enterrados, e onde eu o serei, muito provavelmente. O jardim onde gosto de ir aos sábados à tarde, nas poucas vezes que visito a minha família, prá ouvir o badalar dos sinos mais de perto – embora ele seja ouvido em toda a cidade. 

Os videos estão no youtube. Parabéns a quem o fez, pela iniciativa, pela valorização do trabalho do Sr. Edgar Klippel.

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=bBe0ZdvGwx4&feature=related

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=stwfP2gZy2o&feature=related