Verão amazônico

Na Europa, ou talvez nos lugares frios, todo mundo tem termômetros para medir a temperatura ambiente. Aqui não vejo disso. Para estimar a temperatura, só mesmo descrevendo a situação.
Domingo, 16:30h. Quarto todo fechado, ar condicionado ligado no máximo há umas 4 horas, ventilador de teto ligado no máximo, lençol de tecido fresquinho, meu corpo nu e descoberto (sem conotações sexuais, por favor… este detalhe é só para ser fiel à descrição do momento), cochilando há duas horas (sem qualquer atividade física, portanto). Acabo de me levantar e tomar um banho frio, pra tentar me refrescar e continuar o cochilo.

É mole?

Quero ir pra Campinho ver mamãe! Socorro!!

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Casa nova

Mudei. Esta é a nova rua onde moro, vista da minha varanda. Rua tranquila e silenciosa. Se passarem 10 carros por dia aí é muito. Minha amiga Nat Peixoto tem um vizinho que ouve Janis Joplin. Eu não ouço a música que meus vizinhos ouvem. Os únicos barulhos que ouço aqui são intermitentes, e nem são diários (o flamengo acaba de marcar o 4o. gol contra o Santos e nenhum barulho se fez na cidade). Ouço barulho de caminhões à noite, carregando toras e mais toras clandestinas, aproveitando-se do fato desta rua ser bem escondida; e ouço barulhos como o que ouvi agora há pouco. Aviões sobrevoando a cidade, bem baixo. Sempre à noite. Fico pensando se são traficantes bolivianos, Polícia Federal, ou ambos, um atrás do outro.

Fechar a janela

Acabo de fechar a janela. Desta vez, não para ligar o ar condicionado ou impedir que a poeira entre, como faço normalmente, mas para evitar que as cinzas da queimada que ocorre agora, ao lado da minha casa, venham sujar a minha cama.

Tenho pensado, ultimamente, enquanto presencio o segundo ciclo de queimadas desde que me mudei prá cá, que ver pastos e floresta pegando fogo é tão natural para o filho de Rondônia, quanto ver o mar de Copacabana é natural para o carioca da zona sul.

Como acabar com as queimadas se quase todos que moram aqui cresceram vendo esse espetáculo (de tristeza, prá mim) se repetir, e repetir, e repetir…

Perdi minha camera fotográfica, e por isso não posso colocar fotos prá vocês da queimada que ora queima.

Colocarei uma foto de poucos dias atrás, tirada da mesma janela – agora fechada –  mostrando o que eu via até 1 hora atrás. O fogo é rápido, o fogo ruge!!

Comunicação

Essa semana aconteceu em Buritis um movimento que evidenciou um problema que eu já falei aqui, en passant: o completo descompasso entre dois importantes órgãos do governo federal: INCRA e IBAMA; política ambiental e política agrária.

As chuvas cessaram, as queimadas dos pastos já estão dando suas caras, e as carretas duplas com toras de árvores centenárias triplicam-se nas estradas. Em especial à noite e nas ruas/estradas mais escondidas.

Buritis nasceu há pouco e cresceu muitíssimo na década de 1990 com a atividade madeireira. O que me dizem por lá é que muitas madeireiras fecharam nos últimos 2 anos, devido à ação intensa do IBAMA e da Força Nacional. Como resultado indireto, a população começou a declinar, mas ainda existem muitas serrarias (1 ou 2 dezenas), que por sinal empregam boa parte da população, que é quem movimenta a economia local. Eu já contei a vocês que ando, ando por essas estradas e só vejo os caminhões, nunca a floresta virgem, o que nos mostra que os toreiros (os motoristas dos caminhões de tora) vão cada vez mais longe buscar a matéria-prima que paga o seu sustento, e o de sua família.

Pois bem, ao norte de Buritis, já no municipio de Porto Velho, fica a reserva Jacy-Paraná, onde a extração de madeira vinha acontecendo desde… desde sei lá quando, mas ano passado já tinha começado. Detectado o problema e vencidas as prioridades organizacionais que os órgãos de fiscalização devem ter , no último domingo o IBAMA iniciou uma operação de impedimento da extração ilegal de madeira na reserva do Jacy. Parece que interditou dois caminhões, um trator e um outro equipamento, cujo nome não me recordo agora (esquecimentos que uma jornalista de meia-tijela como eu se permite ter). Tal ação fiscalizatória desencadeou a revolta dos madeireiros e comerciantes de Buritis, que sentiram-se acuados afinal, com o cerco se fechando sobre o seu meio de vida.

Na quarta-feira os manifestantes fecharam os acessos à cidade de Buritis e todo o comércio cerrou as portas, em apoio aos madeireiros. A situação deve ter ficado tensa por lá, bem tensa. Deve estar ainda. Claro que eu adoraria ter visto tudo pessoalmente, e ter tido a minha primeira oportunidade de cobrir um conflito, mas eu não estava lá. E não estando, só poderia remediar isso se chegasse de helicóptero. Ou de ambulância.

Pelo pouco que já li, os manifestantes querem resolver um problemão que rola por aqui: a regularização fundiária. A maior parte dos proprietários de terra não o são legalmente. (Quase) ninguém tem documento da terra. Sem documento, não dá prá fazer manejo florestal, a única forma de explorar a madeira legalmente. E a ideia de não explorar a madeira não passa pela cabeça de ninguém, então… se não há documento, o jeito é explorar ilegalmente.

Foi montado um gabinete de crise pelas autoridades competentes, e estes disseram que não haveria negociação enquanto a cidade estivesse sob domínio dos manifestantes. Estes resolveram liberar a cidade ontem, quinta-feira, lá pelo meio d0 dia. Mesmo assim, à noite, eu vi dezenas de viaturas da Força Nacional dirigindo-se para a cidade, que ainda deve estar altamente policiada.

E agora? Eu acho que o IBAMA está certo em coibir o desmatamento, que é exagerado; e acho que os manifestantes estão certos em fazer alguma coisa, demonstrar seu descontentamento, criar uma situação. Ninguém disse que ser governo é fácil (quer dizer, eu acho que ninguém disse). A coisa não pode ser linear, tem que haver transversalidade dentro do governo. Não dá prá fazer uma política ambiental forte sem dar alternativas reais prá quantidade enorme da população que vive de técnicas ultrapassadas, que agridem o meio ambiente, promovem mudanças ambientais, etc. E aqui me refiro não só aos milhares de trabalhadores braçais, empregados, mas também aos empresários, que só vão largar um osso que lhes dá muito dinheiro se acharem outro nicho, que lhes dê tanto ou mais dinheiro. E olhe lá!

Sempre ouço que o INCRA é um órgão altamente burocratizado e ineficente. Ele precisa ser modernizado, precisa começar a contextualizar, a compreender o resto do mundo. Por que não se decide por uma espécie de anistia generalizada e se regulariza esse povo todo de uma vez? Estou falando de famílias que vivem sobre a terra há 10, 20, 30 anos.

Tudo isso sem falar no BOI. Esse animal gente, o BOI, é o maior valor que existe para o povo daqui. Quem tem, quer ter mais; quem não tem, sonha com o dia em que comprará suas primeiras cabeças. Os grandes criadores já estão pensando em fazer criação intensiva, já que não podem mais desmatar, e tem muito a perder com as multas, mas os pequenos produtores ainda pensam e vivem no modelo tradicional: desmatar para formar pasto para colocar seu gado, até que o pasto fique imprestável, e ele precise desmatar mais para formar mais pasto. E, já que vai desmatar, tem que vender a madeira, nemess?

Mas afinal, Quequel, o que isso tudo tem a ver com o título do post, Comunicação? Admito que o título não está bom, nada instigante ou chamativo, mas não me ocorreu nada mais criativo. Esse episódio ocorrido em Buritis serviu também prá me fazer querer falar de outra situação que me deixa estarrecida aqui: a forma como a comunicação jornalística é feita. Ou, talvez, a forma como ela NÃO é feita.

Essa semana eu estava em Campo Novo, a 60 Km de Buritis. Na fila da lotérica, a mulher à minha frente telefonou para uma conhecida perguntando sobre o pisero de lá, se a amiga estava em segurança, e tal. Terminada a ligação, eu lhe perguntei que pisero era esse, e ela contou-me sobre a manifestação revoltosa. Aí perguntei como ela ficou sabendo. “Me ligaram de lá”, respondeu. Todos os outros com quem conversei ficaram sabendo assim, no boca-a-boca.

E a notícia oficial?

TV: todo mundo tem televisão em casa. Se há energia elétrica, e em quase todo lugar há, a TV está presente. Presente e acompanhada daquela antena parabólica grandona. Isso significa, em última instância, nenhuminha notícia local. Certa vez, também em Campo Novo, eu assisti a uma matéria falando de um poste colocado num lugar ruim, no trevo de uma cidadezinha no interior paulista, onde eu havia morado poucos meses antes. Mas conflito ali ao lado, humm, humm.

Rádio: deve ser o meio mais popular de transmissão de notícias locais, mas não estou certa quanto à sua inserção na cultura familiar. Raramente vejo/ouço um rádio ligado. As TV’s colocaram o bichinho de lado, acho. Certamente o desinteresse por notícias locais contribuiu para esse abandono.

Jornais escritos: Conheço dois jornais em Rondônia. Acho-os bem ruinzinhos, mas são mais raros que ruins, nessas cidades do interior, onde não há bancas de jornal. Devem vir poucos exemplares, só para os assinantes. Na cidade onde moro, só vejo jornal na churrascaria e na ante-sala do gabinete do prefeito; em Buritis, só no hotel onde me hospedo; em Campo Novo, nunca vi.

Sites: conheço dois, que trazem notícias dos municípios da região. Deve haver outros, que eu não conheço. Mas cá entre nós, os sites são veículos ainda pouco acessados por boa parcela da população. Quando vejo esses que conheço sendo acessados, é prá ver fotos das festas. As matérias são bem pequenininhas. Eles são mais coluna social que meio de comunicação jornalística.

Sobra mesmo a fofoca, o boca-a-boca. Em pleno Século XXI.