Dicionário de termos rondonienses

Tentando espantar o marasmo neste singelo point virtual, post novo.

Não sei se posso chamá-lo assim: Dicionário de termos rondonienses. Rondônia é um caldeirão de culturas, e deve ter palavras de todos os cantos deste país. Abaixo mostrarei algumas palavras e expressões que eu ouço aqui, e que me são estranhas. Como os leitores são de lugares variados, é possível que conheçam muitas das expressões que para mim são novas.

Bamburrar – ficar rico; ganhar muito dinheiro. “Meu vizinho bamburrou com o café no ano passado”

Cuidona – pessoa que cuida da vida dos outros. “Fulana é uma cuidona. Sabe onde vou, o que faço e ainda vem brigar comigo. E nem minha mulher é.”

Dá nada não – não tem problema. ” – Humm, me esqueci de pagar a conta ontem. – Dá nada não. Amanhã você paga”

Dar azia – perturbar, encher o saco. É muito comum entre conjuges, relatando reclamação do outro. “Saimos ontem, mas fulano deu azia e voltamos cedo prá casa.”

É pacabá! – É para acabar; é o fim da picada!!

Época das águas – época do ano correspondente ao inverno amazônico; estação em que chove muito, enchendo os rios; vai mais ou menos de novembro a maio

Fim da rosca – fim da linha; fim da picada; limite

Jerico – aquele carrinho que vocês já conhecem

Jericódromo – pista para corrida de jericos

Nóia – qualquer droga ilícita. “Fulano fuma nóia”

Noiado(a) – usuário de droga ilícita; pessoa drogada. “Fulano tá noiado”

Parar (em determinado local) – hospedar-se, morar. “Você pára aonde? Eu páro no Palace Hotel”

Pisero – bagunça, festa. “A festa foi um pisero bom que só”; “As crianças foram prá casa da avó e fizeram um pisero danado”

Pocar – essa eu conheço, porque é capixaba. Significa estourar. “Em festas de crianças a hora que menos gosto é quando elas pocam os balões”

Podar – ultrapassar um carro. “É perigoso podar nas curvas da BR 364”

Ponhar – verbo Por. “Ponhei forro novo na sua cama”

Só Jesus na causa – diz-se para exemplificar uma situação difícil de se resolver. “Meu filho não quer saber de estudar. Só Jesus na causa”

Tilinga – prostituta (tenho dúvida se refere-se a uma profissional do sexo ou a uma mulher que apenas tem má fama na cidade)

Vazar na braquiária – desaparecer; sumir no mundo; ir embora. “Moisés separou-se de Eliana e vazô na braquiária. Nunca mais foi visto.”

Expressões que me disseram, mas nunca ouvi:

Tô buguês – tô tranquilo

Tô buiado – tô com dinheiro

Tô brefado – tô sem dinheiro

Ter uma lera – ter um bocado, ter muito de alguma coisa

Torar a jaca – ganhar

É isso aí. convidei uns rondonienses prá virem aqui palpitar. Vamos ver se eles aparecem.

Visitas ao blog

Sábado passado, dia 16 de abril, este blog ultrapassou suas primeiras 1.000 visitas. Agora, estamos em 1.041 visualizações. Não sei se isso pode ser considerado um bom desempenho, mas estou achando lindo, hehe, embora isso não signifique que ele tenha sido lido todas essas vezes. Cai muita gente aqui procurando por outras coisas, não se interessa e vai embora sem nunca mais voltar. Tem também uns amigos preguiçosos, que dizem que eu escrevo demais (blasfêmia!)… Além disso, temos que considerar que o assunto não é assim um futebollll, uma política partidária, que costuma apaixonar multidões…
Enfim, nesses quase quatro meses foram 28 posts e 90 comentários. Obrigada a todos!!
Quero ainda dizer aos comentaristas mais frequentes que o maior barato do blog, pelo menos prá mim, mais que a interatividade do leitor com o escritor, é a troca entre os comentaristas. Como eu não consigo atualizar a página diariamente, o post fica vários dias no ar, e isso permite que haja troca entre vocês sobre o último assunto abordado. Vamos lá, animem-se, leiam, comentem e voltem depois, para ver se houve resposta ao seu comentário, se rola um debate, uma troca de ideias. O Colafina está sempre aí, puxando um papo.

Garimpo Bom Futuro

Abaixo colocarei fotos que tirei quase 1 ano atrás no Garimpo Bom Futuro, em Ariquemes. O lugar é imenso… se fosse uma área circular teria uns 12 Km de diâmetro, segundo medição minha no Google Earth. Dá prá vê-lo na foto de satélite que coloquei no início da série “Viver em Rondônia”. Ela já foi considerada a maior mina a céu aberto do mundo, e há alguns meses vieram uns americanos fazer um filme lá.

O garimpo Bom Futuro bombou uns 20 anos atrás. Devia ser uma espécie de Serra-pelada, sei lá. Todos que falam sobre ele têm a mesma frase na ponta da língua: “morreu muita gente lá” ou “tem muita gente no fundo desses lagos”.

Hoje há umas poucas empresas explorando, e também pessoas,  chamadas requeiros, que fazem exploração manual no material que as máquinas grandes perdem. Os lagos, já muito antigos, são lindos. Eu tenho vontade de nadar neles.

Abaixo a primeira visão que tive do garimpo:

É tudo muito grande. Quando estive aí nós precisamos de ajuda prá achar o caminho de volta. E olha que o meu motorista é conhecedor da região há muitos anos.

Essa foto eu acho linda, mas ela me remete ao deserto, e não à Amazônia:

Na foto abaixo tem um carrinho – um Fiat 147, talvez – no barranco. Usem-no para estimar o tamanho do lago.

Acima, dois caminhões trabalhando.

Abaixo, uma amostra de que já houve floresta aqui.

O Historiador e escritor Francisco Matias, autor do livro Formação histórica e econômica do Estado de Rondônia: do Século XVI ao Século XXI, que eu adoro ler, nos ensina que houve 2 ciclos de cassiterita no Estado.

O primeiro, iniciado em 1958 com o processo em larga escala de exploração manual da cassiterita, alterou a base econômica, migratória e política do então Território Federal.

Diz o professor Francisco Matias em seu livro:

“No final dos anos 1960, a primeira fase do Ciclo da Cassiterita continuava em expansão, apesar de ser explorada manualmente, com técnicas rudimentares, por garimpeiros ou pequenas empresas mineradoras. […] O regime militar dava inequívocas demonstrações de que pretendia controlar a extração de cassiterita em Rondônia. Desse modo, uma nova política passou a ser executada e alterou completamente o sistema de exploração e comercialização desse minério, a partir da proibição da garimpagem manual. Neste novo contexto, o governo do regime militar, de acordo com o Código de Mineração, de 1967, privilegiou empresas mineradoras de médio e grande portes que se instalaram em terras rondonienses e passaram a operar com modernas técnicas de lavra mecanizada. O caminho desse novo ciclo econômico, a rodovia BR 029 (hoje BR 364), estava pronto para integrar o Território ao centro-sul do país e viabilizar o escoamento da economia estanífera.”

No início da década de 1970 Rondônia era o sétimo maior produtor de cassiterita do mundo, a despeito desse minério ser explorado via garimpagem manual.

Assim que, em 15 de abril de 1970, o governo federal criou a Província Estanífera de Rondônia, inaugurando o Segundo Ciclo da Cassiterita, que durou de 1970 a 1990, segundo a fonte consultada, do Historiador Francisco Matias. Qual será a produção atual e a colocação do Estado nos rankings nacional e internacional?

Fácil pensar nas tensões sociais que a alteração da prática manual para mecanizada provocou na região. Diz o Prof. Matias que houve confrontos entre garimpeiros e governo, com desdobramentos de ampla repercussão nacional e internacional.

Uma curiosidade é que com o modelo mecanizado a produção caiu. Por que terá isso acontecido?

Na segunda metade da década de 80 o papel da Agricultura na economia rondoniense já era bem expressivo, mas o ciclo da cassiterita ainda tinha influência sobre a economia e política regionais.

“Em 1987 foi aberta a mina de Bom Futuro, no sistema de cooperativas, reativando a garimpagem manual de cassiterita, após muitos conflitos entre garimpeiros e a empresa mineradora que possuía os direitos de lavra. Considerada a maior mina a céu aberto do mundo […]. Sua descoberta foi ocasional, feita por garimpeiros, depois de a própria empresa mineradora haver realizado estudos na área, cujos resultados demonstraram ser contraproducente operar com sistema mecanizado, por haver se exaurido o filão.”

De novo, aqui, eu gostaria de perguntar po quê? Algum conhecedor da área entre os leitores, prá nos trazer mais explicações?

Obrigada professor Francisco Matias. Estou a procura do seu contato para convidá-lo a frequentar o blog e nos brindar com mais informações sobre Rondônia. Se algum leitor o conhecer, por favor me apresente.

Garimpos de cassiterita

Gostou do post passado? Tá interessado em mudar seu ramo para a extração mineral de cassiterita? Vou te explicar como funciona, então.

Primeiro a PC, essa prima da retroescavadeira aí na foto, faz um buracão; ela retira a
terra que está por cima da camada de cascalho que contem cassiterita, e dá uma boa
adiantada no trabalho, que levaria semanas se fosse feito no muque.

Depois, enquanto a PC vai ali pro lado cavar um novo buracão, dois ou três homens
lavam a terra, ou o cascalho, com fortes jatos de água.

Nesse processo vai-se formando uma lama, que é absorvida por uma mangueirona grossa, tocada a bomba, claro, que leva essa lama prá um máquinha chamada Dig, se não me falha a memória.

Dig está um buraco mais acima, o último que foi explorado. Através de vibração e pela
diferença de peso, essa máquina separa a cassiterita de um outro metal, que eles
chamam de ferro, e o excesso de água é jorrado no buraco recém explorado e que daqui
a pouco vai virar um lago.

O “ferro” (acima, no monte e na minha mão) sai por uma torneirinha e a cassiterita, mais pesada, vai se acumulando no fundo da DIG. Depois abre-se a segunda torneirinha e a
cassiterita sai. Esse último processo eu não vi. Não sei como drenam o resto de água
que está misturado ao minério. Mas drenam, e depois a ensacam e vendem.

Ganham dinheiro, uns o investem, outros o gastam até ele acabar, e vão pro buracão mais de cima, começar tudo de novo. E os lagos vão se formand0.

Recentemente eu soube que há um outro tipo de processo em Campo Novo, que é subaquático. Os garimpeiros mergulham e extraem, com grossas mangueiras, a areia do fundo do rio. Do lado de cima essa areia é lavada e o metal, separado. Esse garimpeiros mergulhadores ficam 4 horas debaixo d’água, se não me engano. Aí são substituídos por outros. Não tenho fotos dos garimpos que trabalham assim.

Abaixo algumas fotos das acomodações. Muitos dos garimpeiros dormem aí, alguns com barracas de camping modernas dentro dos barracos, e cada local tem a sua cozinha e cozinheira.

Enfim, esse processo de extração mineral me parece bem prejudicial ao meio-ambiente. Eles só podem escavar em áreas de pasto, já desmatadas, e as lagoas têm que ser bem represadas prá não contaminar os rios, mas é claro que nem sempre essas duas coisas acontecem. Mas eles não são bandidos, pelo menos em sua maioria. São pessoas de bem que estão trabalhando naquilo que sabem, que lhes rende dinheiro, justamente porque existe mercado prá isso. O estanho serve prá muitas coisas, entra no processo industrial de quase tudo, além daquelas ricas e lindas taças de vinho que a gente compra em São João Del’Rey.

Na foto acima procurei reunir duas coisas que existem em abundância por aqui, e não
têm valor nenhum. O “ferro”, esse sub-produto da extração da cassiterita, e o babaçu,
que tem demais em Rondônia inteira, produz um coco que faz um bom carvão e uma
polpa que pode ser usada prá fabricar biodiesel. Eu não compreendo porque ainda não
agregaram valor financeiro ao babaçu. Muitas das queimadas são prá eliminar
justamente essas árvores do pasto, que são tidas como praga pelos criadores de gado. É
certo que rondoniense não combina bem com extrativismo vegetal, mas combina com
lucros. Por que ninguém encontra uma viabilidade econômica para o babaçu é o que
sempre me pergunto. Quanto ao “ferro”, disseram-me que já foram feitos estudos
diversos, e que não há mesmo viabilidade econômica prá ele.

Até aqui vocês viram fotos de dois ou três garimpos em Campo Novo. Deve haver mais uma centena desses lá. Abaixo são fotos de outros dois garimpos, que visitei em julho de 2010. Ficam na Floresta Nacional do Jamari (FLONA Jamari), em Itapõa do Oeste. São plantas enormes, de empresas que exploram a região há décadas, com maquinário pesado. As fotos não são todas minhas, mas infelizmente é impossível dar o crédito devido. Éramos muitas pessoas, e as fotos se misturaram num mesmo arquivo.

O primeiro deles só vi de longe.  Se não me falha a memória, foi antigamente da BRASCAN, multinacional Brasil-Canadá, e hoje é operado pela ERSA – Estanho de Rondônia. Eu visitei a área de recuperação ambiental que a BRASCAN desenvolve ao lado, onde antes explorou o minério. Eles fazem um trabalho super difícil e interessante de recuperação ambiental. Trabalho lento, profissional, e com boas consequencias a longo prazo para a natureza.

O próximo é o Garimpo Cachoeirinha, que em julho estava interditado pelo IBAMA, mas hoje já deve estar liberado. Após a Licença do IBAMA, será (ou está sendo) operado pela Metalmig. Quando fomos havia vestígios de pessoas trabalhando manualmente lá, mas se esconderam, pois estávamos com a Polícia Militar.

Pense na consistência do chão em que a gente pisa!

Abaixo, uma cena muito bonita, mas triste, porque mostra um leito de rio quase morto, sem água, numa época em que os grandes rios da região ainda estavam bem cheios (a foto foi tirada em julho de 2010). A garimpagem desordenada vai assoreando os rios e matando-os, aos poucos, mas rio morto na Amazônia é o fim da rosca, não é?

Alguns outros clicks do Garimpo Cachoeirinha

Ainda tem o Garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, mas este virá no próximo post.