Campo Novo de Rondônia

Como todos os municípios de Rondonia, Campo Novo tem a paisagem abaixo:


O município está ao sul de Buritis, e seus centros urbanos estão separados por
apenas 60 Km de estrada de terra. Entretanto, as semelhanças entre eles são poucas. A
vocação original é diferente, e isso muda tudo.
Eu já disse que, fora Porto Velho e Guajará-mirim, tudo por aqui é recente, mas sempre
há uma exceção. A região onde está Campo Novo começou a ser ocupada na década de 50. Descobriu-se que suas terras são ricas em cassiterita, o mineral do
estanho, e iniciou-se aqui uma atividade garimpeira manual, ou feita por pequenas empresas. Pessoas vieram prá cá fazer dinheiro. Buracos e dinheiro, a bem dizer.

Com o passar dos anos, e o crescimento da importância dessa atividade extrativista para a economia do país, o governo federal da década de 60 proibiu a garimpagem manual e privilegiou mineradoras de médio e grande porte, que faziam uma extração mecanizada, mais produtiva. Não havia estradas, e abriram um novo campo para
pouso de aviões, único meio de transporte até essas terras, então cobertas por densa
floresta tropical. A única referência para a chegada de correspondências, dizem, era
mesmo a pista de pouso, o campo novo. Minha amada, minha querida, mande sua
cartinha pro campo novo que a receberei. E assim foi. Não sei se o caso de amor que
acabei de criar vingou; provavelmente não, que vida de garimpeiro não combina com
vida de marido, mas o nome pegou e, em 1992, foi criado o município de Campo Novo
de Rondônia.

Eu sempre pensei que a BR-364, que liga esta região ao resto do país, fora construída na época da colonização, para trazer os muitos paranaenses que vieram prá cá a partir da década de 70, mas não. Foi a exploração mineral que fez com que a construção da estrada finalmente acontecesse. Desde os tempos de Getúlio que se falava nessa estrada, e alguns trechinhos eram construídos, mas foi com Juscelino e a cassiterita que ela voltou a virar realidade. Uma realidade lenta, porque foi João Figueiredo, quase 20 anos depois, que a inaugurou asfaltada.

Voltando a Campo Novo…

Acima duas fotos da avenida principal, para um lado e para o outro, a partir do ponto onde eu me encontrava, obviamente. O limite dessa avenida corresponde ao limite da cidade. Abaixo, fotos de outros pontos da cidade:

Há quem diga que esta cidade não vai prá frente; há quem diga que ela vai acabar; mas
não é verdade. Bancos por aqui, só o Banco Postal e um caixa automático do Bradesco.
Tem também uma lotérica, que passou um tempo fechada mas reabriu em dezembro passado, facilitando a vida dos correntistas da Caixa, que não precisam mais viajar 100 Km para sacar seu rico dinheirinho.

Há um pequeno hospital, que sofre prá conseguir médicos, mas há. Bares e farmácias, esses pipocam como em todos os lugares. Várias ruas estão sendo asfaltadas; a primeira praça da cidade está sendo construída (dizem que há muuuiiiiitttoooosss anos se dá essa construção, mas não sei. Só sei que é devagar, porque nunca vi homens trabalhando lá); uma empresária local está apostando e acabou de construir um prédio grande, de alvenaria, que abriga uma bonita lanchonete.

A avenida central é larga, e concentra a maior parte do comércio. A loja Pluralidades
nada mais é que um supermercado, e a Novas Novidades, do outro lado do que um dia
deve ser uma praça, nada mais vende que pluralidades. É, tem de tudo lá dentro, roupas,
brinquedos, presentes para casa, papelaria, etc.

O lugar mais bonito da cidade é a sede do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ex-IBAMA), que administra o Parque Nacional dos Pacaás Novos.

Aqui vive a Arara, esse lindo pássaro domesticado. Araras costumam viver longe de humanos, e quando as vemos elas estão lá no alto, voando com seus pares. Sempre em par. Mas não essa daí. Arara foi criada em cativeiro doméstico. Teve suas asas cortadas, é cega de um olho, e nunca encontrou o amor. Um dia sua dona cansou-se, ou por algum motivo não pôde mais cuidar dela, e a doou, ou entregou, sei lá qual o melhor verbo prá isso, para o ICMBio de Campo Novo. A sede do ICMBio tem com um jardim bem cuidado, e é lá
que nossa musa vive. Caminha, sobe em árvores, vai ao braço dos conhecidos, dos
chegados. Mas voar, não voa. Encontrei-a no portão. Um pouco arisca, não deixou que
eu me aproximasse muito, mas nunca pensei em fotografar uma dessas tão de perto.

Para o curioso leitor que quiser visitar esta simpática cidadezinha, dirija pela BR 364 até
Ariquemes. De lá, pegue a BR 421, aprecie as planícies amazônicas por 75 Km, e
depois entre no último trecho da estrada, diferente de tudo que se vê por aí. São 26 Km
de estrada de terra num terreno acidentado, com muitos morros e pedras. Muitas pedras.
Sempre surpreende o amazônida desavisado que não está acostumado com altos e
baixos no relevo.

A porção sul do território de Campo Novo é desabitada do bicho homem, porque abriga
o Parque Nacional dos Pacaás Novos, (mais aqui) lugar que ainda quero conhecer. A porção norte, que faz divisa com Buritis, está hoje desmatada e é usada para agricultura e pecuária de leite. A porção sudoeste também. Mas uma boa parte do território, a sua porção leste, é
mesmo usada para a garimpagem de cassiterita. São milhares de buracos, antigos e
novos, em todos os lugares.
As grandes empresas de mineração ficaram por aqui até quando foi rentável prá elas.
Exploraram e foram embora, deixando o espaço para os pequenos garimpeiros. O
resultado é que hoje a extração mineral é feita meio que domesticamente. São
pequenos garimpeiros, eles dizem, pessoas físicas que têm uma ou algumas poucas
máquinas, empregam 5 a 7 pessoas por maquinário, e extraem uns 100, 200 Kg de
cassiterita por dia. Eles arrendam sítios ou fazendas, exploram o minério, e pagam com
10% da produção para o dono da terra. Atualmente há somente uma empresa grande atuando, a Metalmig. Ouvi dizer que eles tiram, ou têm condições de tirar, cerca de 1 tonelada de cassiterita por dia, mas não conferi a veracidade dessa informação.
Bem, os pequenos trazem sua produção prá um separador, localizado na zona urbana, que
lhes paga, hoje uns R$25,00 pelo quilo de cassiterita. O separador separa um pouco mais o
minério do “ferro”, como eles chamam o metal que não é cassiterita mas que vem junto, e vende a cassiterita em Ariquemes, por um preço que parece ser segredo. Uma das empresas que compra é a ERSA – Estanho de Rondônia, que é a mesma dona da CSN.

O metal é pesadinho. Um quilo corresponde a um copo de extrato de tomate cheio. Um saco dos que vocês vêem na foto abaixo pesa em torno de 100 kg, ou seja, tem uns R$
50.000,00 aí nessa foto.

Parece que ganham muito dinheiro, mas também perdem com mulheres e bebida, como
todo mundo sabe. Dinheiro ganho fácil… mas não é assim com todo mundo. Os donos
dos maquinários são mais espertinhos e eu acho que investem seu dinheiro em mais
maquinário, em casa prá família morar, em presentes prá esposa (peguei taxi com um
marido apaixonado uma vez, levando um presente prá mulher, que mora em
Ariquemes).
O hotel onde eu paro em Campo Novo é da esposa de um garimpeiro, por exemplo. Os
garimpeiros param no mesmo hotel, quando vêm prá rua, e às vezes eu converso um
pouco com eles. Essa frase foi só prá mostrar como eles falam por aqui. Ninguém
dorme ou pousa em tal lugar, mas pára.

Um dia, sentada nesse sofá assistindo TV, um garimpeiro ao meu lado quiz saber o que penso do beijo técnico. E depois falou-me dos planos dele para o futuro. Teria acabado comigo, se eu tivesse medo de envelhecer.
Ele mexe com garimpo desde 1984, e disse que vai parar em 2011. Já tem 47 anos e
quer se casar outra vez, sossegar. Mas não quer se casar com mulher nova não; mulher
nova é bom só prá um programinha, mas sai caro, uns R$200,00 a 300,00 por programa.
A mulher não precisa ser nova, ele repetiu, uns 30, 35 anos tá bom prá ele. Até 40 até que vai. Ela também não pode ter filhos, e nem querê-los (querê-los?? Pode essa esquisitíssima
construção???). Relevei. Ele estava bêbado mesmo. Hehe.

Tá doido prá ver a cara do moço né, Torero? Sorry, tirei foto não.

Vida de garimpeiro é itinerante. Eles são nômades levados prá lá e prá cá ao sabor das
fofocas. É assim que eles chamam as notícias que dão conta de um ou outro lugar onde
tá dando dinheiro. Transitam principalmente entre a cassiterita de Campo Novo e o ouro
em Jacareacanga, no Pará.
De novembro de 2010 prá cá aumentou muito o número de garimpos em Campo Novo,
porque o preço do quilo subiu consideravelmente. Segundo me disseram, esteve em R$ 12,00 no meio de 2010, foi a R$24,00 em dezembro, chegou a R$ 32, 00 umas semanas atrás e, na semana passada, estava em R$ 25,00. O preço subiu porque estava faltando estanho na China. É o mundo globalizado que todos já conhecem. Falta estanho na China e muda a vida da galera no interior da Amazônia. É isso aí.

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Caminhos

Caminhos percorridos na semana passada.

Rio Candeias, no município de Campo Novo, perto de sua cabeceira. Esse rio desemboca no Rio Madeira, já bem próximo da cidade de Porto Velho:

BR 421:

BR 421, ponto sobre o rio Jaci-Paraná, na divisa entre Campo Novo e Nova Mamoré:

Na minha opinião, o ponto mais majestoso de toda a Br 421 está aqui:

Saindo da BR… Em um giro de 200 Km, não é que teve uns 200 metros de matinha?

 

Aqui, dois momentos do rio Jacy-Paraná, que nasce aí pertinho dessa ponte e desemboca no Madeira, uns 400 Km adiante, bem próximo da região onde estão construindo a usina de Jirau, palco de brigas entre operários na semana passada.

A primeira foto, tirada quarta-feira passada, em plena “cheia”, a segunda, tirada do mesmo lugar, em julho de 2010, no meio da “seca”:

A diferença no volume das águas, de uma estação para a outra, é algo mágico. O problema disso é que você vai precisar vir pros lados de cá pelo menos duas vezes.

 

 

 

Fragmentos

Mas este boteco aqui está abandonado pela dona, hein? E só pela dona, pois que há visitantes todos os dias. Peço desculpas pela pouca assistência, mas terá que ser assim.

Passei alguns dias naquele lugar que chamo de lar, no interior de São Paulo. Parece-me que ao mesmo tempo havia pessoas felizes, divertindo-se, atendendo pelo nome de folião, de foliã. Bons tempos quando eu brincava assim. Este ano não vi carnaval nem pela televisão. Mas não pensem que estou vencida. Ainda me divertirei muito em futuros carnavais. Tremei marido, tremei! (hummm… “tremei” no singular pode?)

O parágrafo acima é para contar-lhes como é difícil prá mim sair de casa e voltar prá Rondônia. Deixar prá trás marido (leia-se amor), cachorro, livros, discos e velas. Deixar minha casa, enfim (casa aqui entendida tanto como house quanto home). Uma boa parte de mim está sempre lá, e a Internet é uma boa aliada, com o Skype e o MSN, com webcams que nos ajudam a matar a saudade. Entretanto, apesar das horas difíceis quando o fim da folga se aproxima, tudo melhora quando chego aqui. Apesar da saudade que sinto, de ter que optar entre ir prá minha casa ou prá casa da minha mãe, quando tenho uma pequena folga, estar em Rondônia não é, de maneira alguma, um sacrifício prá mim. Eu gosto de estar aqui. O meu trabalho é bom, e este blog me ajuda, deveras, a procurar – e achar – poesia em tudo, o que suaviza a experiência de estar longe dos meus amores (dos meus M’s: Mamãe Maria, Manuel e Max).

Passei a última semana em Campo Novo, a próxima cidade que apresentarei prá vocês. Hoje, estou de volta a Alto Paraíso, e como sempre muito bem assistida pelas amigas daqui. Saí hoje para umas comprinhas: um cartão de aniversário; uma fitinha para laço em presente; uma caixinha de grafite para lapiseira. Cada coisinha numa loja diferente. Cada vendedora trouxe-me uma sacolinha plástica, a despeito de eu já ter uma sacola em mãos, onde cabia perfeitamente cada voluminho que estava comprando. Eu nego educamente, mas não me arvoro a explicar porquê. Não quero fazer proselitismo ambiental, mas SEMPRE me surpreendo quando percebo que muitas pessoas não tem a menor ideia de que essas sacolinhas plásticas não deviam ser regra; de que há pequenas ações que podem ser feitas por todos para termos um mundo mais limpo; de que não há a menor ideia de que um mundo ambientalmente mais saudável é necessário.

Aos meus olhos, há tanto o que se fazer por aqui. Será que a população almeja mudanças, progresso, cidadania plena? Porque isso vem acompanhado da presença do Estado, e portanto de regras, de profissionalismo, de um encurtamento dos limites de ação das condutas pessoais. Quem quer?

Alguns exemplos recentes:

– Essa semana um cara foi morto aqui na rua. Três tiros a queima roupa. Não o conheci, embora sua farmácia fosse em frente ao meu local de trabalho; dizem que era uma pessoa polêmica, do contra, que denunciava todos ao Ministério Público, etc, etc…

– Perto de Buritis, passei em frente à uma casa onde até há pouco tempo morava um senhor com suas sete esposas; em seguida, em frente à casa de outro senhor, que tinha dezenas de filhos, com a esposa e com a própria filha

– Quinze minutos mais tarde, demos carona a uma mulher que tem três filhos. A moça de 15 fugiu de casa aos 12 para se casar com um homem de 30 e hoje espera o primeiro filho deles; a mais nova tem atualmente nove anos. Segundo a mãe é espevitada, grande, e afirma que fará como a irmã mais velha, fugindo cedo de casa para se casar. Há pouco denunciou o padrastro à mãe, por ele ter lhe mostrado “suas coisas” e ter pedido segredo. A mãe não sabe se acredita, mas já colocou o homem prá fora, porque ele não se dá bem com o filho mais velho que veio morar com ela; não quer levar o menino para trabalhar. Disse que o marido quer voltar, mas ela não vai topar porque, embora não esteja certa sobre a denúncia da filha, tem medo do Conselho Tutelar.

São histórias que acontecem em todos os lugares, até na Áustria, mas no interior do interior, nas regiões mais pobres e desiguais do mundo, onde é forte a ausência do Estado, principalmente, ausência de boa educação, isso acontece muito frequentemente. E eu estou vendo isso.

Marinho

Quando eu fiz mestrado, lá no Acre, um dos colegas estudava os acidentes neurológicos causados por quedas de árvores, na atividade madeireira.

Marinho sofreu um acidente desses. Ele faz parte de uma realidade que deve ser grande na Amazônia, mas de que não se ouve falar muito.

Batizado José Marinho Filho, e conhecido simplesmente por Marinho, nasceu há 44 anos no Mato Grosso do Sul. Na segunda metade da década de 80, no auge da corrida para a região de Ariquemes, sua família veio tentar a sorte por aqui. Em 1987, aos 21 anos, Marinho trabalhava numa serraria. Um belo dia uma tora podre soltou-se do gancho que a levantava e caiu sobre ele, esmagando suas vértebras e tornando-o paraplégico.

Passou seis meses no excelente Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, e voltou para o Mato Grosso do Sul. Depois de sete anos fora, a família resolveu retornar para Alto Paraíso, onde está até hoje, lugar que chama de casa.

Ele é também exemplo de superação, porque se expõe, vive a sua vida da melhor forma possível, com as condições que esta cidade lhe dá. É uma pessoa que tem seus próprios meios de locomoção – uma cadeira de rodas, uma moto e um carro – e pode ser visto por aí, principalmente em sua moto, que carrega atrás a cadeira. Isso lhe dá uma independência preciosa.

Vocês podem imaginar que a maior parte das ruas das cidades amazônicas é de terra (lama na época das águas), e que não há sequer calçadas, que dizer de rampas para cadeirantes? Mesmo assim, até na corrida de Jericos ele vai, com toda a lama que se faz presente lá. (Aliás, eu fiquei positivamente surpresa com a quantidade de cadeirantes que vi na Festa do Jerico. Foram poucos, em números absolutos, mas muito mais do que se vê no dia-a-dia).

Marinho hoje trabalha na Secretaria Municipal de Esportes, organizando eventos esportivos. Divorciado, mora com os pais, embora tenha independência doméstica. Gosta de viajar – já foi até para o sul dirigindo seu próprio carro, e também gosta de pescar. Agradeço pela oportunidade de falar dele aqui, e desejo-lhe o melhor.