BR 364

Gosto muito de viajar e por isso estou sempre na estrada. Sinto as BRs 262 e 364 são como quintal de casa.

A BR 262, uma rodovia transversal que liga Vitória-ES a Corumbá-MS, tem 2.295,4 Km de extensão. Na infância e adolescência eu usei principalmente os seus primeiros 40 Km, que ligam a minha cidade à capital. Depois, rumei em direçào a Minas, onde fiz faculdade. Mais tarde, bem mais tarde, fui morar em Franca-SP, que fica perto de Uberaba-MG, por onde passa a minha querida 262. Sempre gosto de passar por lá. Digamos que herdei a 262 de nascença e sempre estarei por lá.

Já a 364 eu adotei depois dos 30. Primeiro ela me levou ao Acre, e agora é vizinha de Alto Paraíso, me leva para o trabalho nos municípios vizinhos, para as compras em Ariquemes, para o lazer e outras viagens, em Porto Velho.

A BR 364 devia ser a nossa Route 66, porque ela permite ao brasileiro fazer uma verdadeira viagem ao interior do Brasil. Só viajei por uma longa extensão dela três vezes, e sempre aprendo mais, sempre quero mais. Indico a todos que queiram se aventurar pelo interior do país.

Com 4.141,5 Km de extensão, a BR 364 é uma rodovia federal diagonal, orientada no sentido sudeste-noroeste. Sempre pensei que começasse na fronteira de Goiás com Minas, como me indicam os mapas que uso, mas para minha surpresa, ela começa em Limeira, SP, prá terminar somente em Mancio Lima, no Acre, junto à fronteira do Brasil com o Peru.

Passa por três Regiões – Sudeste, Centro-Oeste e Norte; por seis Estados; e três biomas tradicionais – Cerrado, Pantanal e Amazônia, além dos “biomas”recentes cana-de-açúcar, soja e algodão. Claro que isso é uma brincadeira minha, mas viajar pela BR 364 é dar-se a oportunidade de ver o chamado celeiro brasileiro, o lugar onde a agricultura extensiva tem lugar.

O trecho exato por onde passa em São Paulo eu não conheço bem, mas sei que a estrada é superposta às excelentes e pedagiadas rodoviadas paulistanas, e tem às suas margens grandes fazendas voltadas à agricultura. Imagino que muita cana-de-açucar e alguma coisa de soja dominem a paisagem.

Atravessando o triângulo mineiro, já no Planalto Central, a vocação também é agrícola. Cana, cana, cana… canaviais extensos tornam a paisagem verde e monótona, mas nem por isso feia. Entrando no sul de Goiás o Brasil rural se intensifica. Nas cidades goianas como Jataí, Rio Verde e outras o que se vê são inúmeras lojas de revenda de equipamentos agrícolas, e muitos silos de armazenagem de grãos. Além, é claro, das extensas faixas de terra plantadas. É tudo muito plano, diferente da região montanhosa que domina a paisagem do interior de Minas, Rio e Espírito Santo.

Cruzando Goiás pelo sul, logo se chega ao Mato Grosso. Ao cruzar o rio Araguaia, ainda pequeno e próximo à nascente, muda o horário – uma hora a menos que Brasília – e o humor do motorista. A estrada no Mato Grosso é péssima, muito horrível demais, como diria um conhecido meu. Sem dúvida, os piores trechos estão entre Santa Rita do Araguaia e Cuiabá, com especial atenção ao trecho Rondonópolis x Cuiabá. Além da estrada ter uma cobertura muito ruim, alternando trechos esburacados com marcas horizontais e trechos reém-recapeados sem marcas que orientem o motorista, o tráfego de bi-trens, carretas e caminhões é impressionante. A beleza fica nos poucos quilômetros da Serra da Petrovina, que limita o Planalto Central e faz o cenário mudar mais uma vez.

Abaixo fotos de uma enorme plantação de algodão, no Mato Grosso, já em ponto de colheita. Essas fotos foram feitas em julho de 2008. O branco da lavoura é muito bonito, mas a minha maquininha não deu conta da profundidade e amplitude do cenário.

Nesse trecho há várias cidadezinhas matogrossenses, e a BR começa a rodear os acessos para o Pantanal mato-grossense.
Cuiabá é uma cidade muito quente, mas interessante para se conhecer. Como não conheço bem, não me atreverei a falar mais nada. Aos amantes da natureza, indico um passeio pela lindinha Chapada dos Guimarães, apenas uns 60 Km fora da BR 364.

Depois de Cuiabá vem Cáceres, cidade banhada pelo rio Paraguai e
última entrada para o Pantanal. Depois de Cáceres ainda faltam 2.000 Km para Rio Branco, e as cidades vão ficando mais raras. Vai dando uma canseira na gente. Ás margens podemos ver agricultura extensiva, alguma coisa de pecuária, trechos de área indígena ainda com a cobertura florestal intacta. E vai batendo o soninho… Até que chegamos a Rondônia e começa tudo outra vez. Uma cidade atrás da outra, a estrada fica de novo vibrante. No fim do Mato Grosso, assim como no começo de Rondônia, podemos ver a transição entre os escossistemas cerrado, pantanal e amazônia. Eu acho isso muito legal!

Mais de 1.000 Km da BR estão em Rondônia, sendo impressionantes 400 Km dentro de um só município: Porto Velho. Cem kilômetros adiante da área urbana principal de Porto Velho, o viajante pode experimentar Jacy-Paraná, distrito transformado em terra de ninguém pelos diversos empreendimentos que foram feitos na regiãono último século, e intensificados agora, com a construção das usinas hidrelétricas.

Já quase chegando ao Acre a BR é interrompida pelo rio Madeira, que temos que cruzar com o auxílio de uma balsa. Esse é o ponto crítico do Acre. Cada vez com menos água no período de seca, as balsas podem levar muitas horas para atravessar o que na cheia é feito em 20 minutos. Filas e filas dos caminhões que abastecem o mercado acreano ficam paradas, aguardando a sua vez para passar e seguir adiante. A ponte sobre o rio Madeira é uma clara estratégia de adaptação aos efeitos das Mudanças Ambientais Globais, e ainda nem começou a ser contruída.

Daqui ela segue asfaltada até depois de Rio Branco. Conheço-a até Sena Madureira, 120 Km após a capuital acreana, mas sei que vários trechos dela já foram asfaltados. Todos os anos, em junho, o governo do Estado abre a estrada até Cruzeiro do Sul, e todos os anos ela se fecha de novo, com a chegada das águas.

O início da sua construção foi decisão de Juscelino Kubsticheck, em 1961, transformando a vedete do post em cinquentona este ano. Necessária para escoamento da cassiterita, para alavancar a nascente indústria brasileira, para povoar o Oeste, ela foi asfaltada em partes. Vários presidentes inauguraram trechos dessa estrada. O trecho rondoniense foi entregue em 1983; mais tarde, veio a ligação até Rio Branco. Estar completamente asfaltada ainda não é realidade da BR 364. O sonho acreano de poder ir ao Juruá, sua ponta oeste, por via rodoviária, durante todo o ano, ainda não foi alcançado, mas está cada vez mais perto. Quem quiser viver a aventura de dirigir num trecho de terra dessa estrada, corra. A oportunidade está disponível por pouco tempo.

Venha conquistar o Oeste.

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Sobre Quequel

Sou mulher, sou do mundo, mas antes sou brasileira com raízes germânicas. 40 anos bem vividos aqui na Terra.
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9 respostas para BR 364

  1. Fatima Ribeiro disse:

    Quequel, você é uma desbravadora!
    Qualquer dia desses vai ter material suficiente para um livro!

  2. El Torero disse:

    Magnifico relato, novamente, como é de praxe, como era de se esperar, não esperava outra coisa, enfim…
    Lindo post de uma apaixonada pela estrada, ou melhor, pelas estradas.
    Em 2003 fui ao ENEF(Encontro Nacional de Estudantes de Farmácia) em Cuiabá. Saimos de Floripa com 10 graus e pegamos quase 40 na capital Mato Grossense. Uma viagem fantástica por dentro e para dentro do Brasil para eu que conhecia apenas um pedaço de SC e RS. O horizonte tem outra dimensão nestas planuras, as distancias as vezes eram angustiantes e a comida mais salgada. As plantações de sorgo extendiam-se ao longe e as moças cuiabanas, brasilienses, cerenses, bahianas, mineiras e paulistas eram um convite a uma total integração ideológica, patriótica, afetiva e farmacologica.
    A BR364 foi um colchonete para o sono, uma BOATE para as noites, um púlpito para as plenárias, um banco de praça para o namoro e uma verdadeira AMBEV durante toda a viagem para aquele guri de 21 anos….

  3. Anrafel disse:

    É isso mesmo governar é construir estradas. Lato sensu, é claro.

  4. KaL disse:

    Olá!

    muito bacana seu post, ainda irei fazer isso…

    conheço muito bem a BR – 364 já fiz inúmeras vezes o trecho Rondonópolis – MT a Manoel Urbano – AC.

    moro atualmente em Campo Grande – MS, mas meus pais moram em Sena Madureira no acre…

    felizmente e finalmente, estão asfaltando o final dela…o trecho após Manuel urbano que vai pra Feijó, já saiu 2010~2011.

    só falta após Cruzeiro do Sul até Mancio Lima, espero que até 2012 ela tenha o final asfaltado, pois se trata de uma estrada importantíssima para a região norte.

    até mais!

  5. Que relato delicioso, viajo lendo as experiências, da vontade de meter o pé na estrada e desbravar o Brasil. Isso dá uma tese de Mestrado ” A produção do espaço: Uma abordagem através da BR 364″. Sou mato-grossense e utilizo esta BR em boa parte de minhas viagens. Parabéns pelo post inspirador.

  6. Igor Braga disse:

    Também devo ter um caso com a BR-364… Depois de nascer em Jataí, vou morar em Alto Araguaia. As duas distantes 200 km pela BR-364. Foram 10 anos indo e voltando para visitar os parentes. Volto para Jataí e ignoro a 364 por 4 anos e meio (Brasília-Jataí se faz pela BR-060). Agora já são 4 anos de São Carlos, e, para minha surpresa, a BR-364 passa na porta da cidade, pelo menos virtualmente, já que aqui ela é a SP-310 (Washington Luiz).

  7. eu adoro a Br 364 sempre viajo por ela…..mais so vi sua importancia quando eu fui para cuiaba pela primeira vez….duas vezes por semana eu faço o treço de jaru a ji-paraná para visistar a familia são apenas 70 km mais é suficiente para apreciar a paisagem..

  8. Valdir celestino disse:

    Amei este comentario pois eu tambem sou amante da 364.no qual nao sabia onde ela comesava .mesmo sem saber eu ja conhecia de limeira ate sena madureira .no momento moro em buritis rondonia .no qual de ariquemes ate buritis sao 80 km na br 421 e 50 na ro 60 eu tambem viajo muito na 364 poismeus pais moram na vila extrema
    e minhas irmas em limeira sp.buritis 16 09 2013.
    de rondonia e minhas irmas em limeira
    sp.o trecho de vilhena ,ate rio branco ACRE beves

  9. valmi pimto de souza disse:

    adorei ter lido seus comentarios e ter visto suas fotos . estou levando um carro que comprei para minha filha do rio de janeiro para caceres ela estuda medicina. na unitat voce me encorajo obrigado valmir pinto de souza rio de janeiro

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